sábado, 23 de setembro de 2017

As costas da Notre–Dame


As costas da Notre–Dame
Márcio Benjamin

Para Miguel Nogueira

 - Paris é apertada!
O sotaque português cintilava por dentro do bistrô, e parecia deslizar por entre a inacreditável fumaça do cigarro.
- É tudo limitado, pequeno por demais, mesas, bares...
- Você pode fumar aqui dentro? – perguntei.
Ele sorriu.
- Posso fazer o que quiser.
Era engraçado. No meio daquela gente, ninguém reclamou da fumaça, sequer os garçons. Seria a educação europeia?
Bebíamos uma cerveja forte. Ele comia umas azeitonas temperadas enquanto expurgava sua opinião sobre a cidade.
- Por incrível que pareça, as costas dos monumentos às vezes são mais interessantes. Vê que absurdo!
Ele apontou, ao longe, a traseira da Notre - Dame. Era difícil discordar.
- Como se chama essa ponte aí em frente?
- Não sei. – mentiu -  Em Paris há inúmeras!
Na ponte, duelavam um acordeon e uma guitarra.
- Precisa ver essa cidade no frio. – suspirou.
Gelei.
- Não preciso não.
- Eu amava Paris. Isso aqui era lindo.
- E não ama mais?
- Não sei, é difícil dizer. É difícil acostumar- se. Sinto falta do mar.
Em um lampejo, foi como se ele tivesse sido largado nas encostas lusitanas.
- O Sena vai subir, despejar-se por sobre tudo.
Eu ri.
- Agora é profeta?
- Só estou aqui há muito tempo.
O garçom interrompeu a conversa trazendo outra cerveja. Encorpada e pouco gelada.
- “Mêrci.” – disse.
- “Mérci.” – corrigiu ele.
Enfadado, o garçom foi embora.
- Hein?
- Mérci. Como se estivesses a escarrar.
- Como em “mérde”?
- Como em “mérde”. Creio que é o que querem nos dizer.
Cruzei os braços e olhei praquele lugar tão refinado, pessoas educadas falando baixo, mas que vez por outra nos cruzavam com olhares que eu sei bem o que significavam.
- Preciso ir ao banheiro.
Levantei-me em direção à porta retrátil. Apertado. Joguei uma água no rosto e voltei à mesa.
- Vamos embora?


Ele não respondeu. Me levantei apressado, fui até o caixa e paguei a conta, recebendo o troco sem trocar palavra. O meu francês acabara.
Da porta, o chamei com a mão. Ele se levantou sem pressa, com uma desilusão no olhar dura de se ver. Talvez fosse a alma portuguesa.
- Vamos? – perguntei.
- Adeus, meu amigo. Nos encontraremos talvez algum dia. Se voltares a Paris. Chegando em Portugal, lembre-se de mim.
Estendeu-se a mão fria para um aperto.
Sem muitas perguntas, atravessei a porta. De braços cruzados, ele me olhou encostado à janela, com o cigarro por entre os dedos pálidos.
Acenou.
E num suspiro, desapareceu.

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Márcio Benjamin Costa Ribeiro, um natalense, do Estado do Rio Grande do Norte, tem 37 anos, trabalha como advogado, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e costuma apresentar-se como um escravo das letras. Desde os treze anos é metido com lápis e papéis, tentando mostrar aos outros um pouco do que se passa em sua cabeça. Participante usual de antologias de terror (Noctâmbulos, Caminhos do Medo, pela Editora Andross), também já fez muita gente rir com suas peças de teatro (Hippie-Drive, Flores de Plástico, Ultraje).Tenta tornar público seus contos exibidos com uma certa freqüência no site www.umanjopornografico.blogspot.com. Maldito Sertão foi o seu primeiro livro, de contos. Lançado em 2012 pela Editora Jovens Escribas, foi considerado um dos melhores de 2012 e 2013 pelo Troféu Cultura Potiguar, e foi quadrinizado pelo coletivo Quadro 9, e em breve conhecerá a tela grande do cinema. Em 2015 foi lançada a segunda edição com mais contos. Em 2016, participou da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien  do Salão do Livro na capital francesa.

Marcio Benjamin e Miguel Nogueira durante a 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien

domingo, 3 de setembro de 2017

Esses marginais

Foto : Thiago Grabriel

Esses marginais

O ar humano, demasiado humano, de Charles Bukowski está presente na obra de autores como Wesley Barbosa e Paulo Junior, na lateral esquerda do mercado editorial brasileiro

Por Bruno Cirillo

Já dizia mestre Cândido, parafraseando Drummond: "É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio." A literatura brasileira, vista pelo grande crítico como "galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas", só pode ser amada pelos brasileiros, porque "se não o fizermos, ninguém o fará por nós".

Os livros de contos de Wesley Barbosa (O diabo na mesa dos fundos) e Paulo Junior (São Bernardo sitiada) são uma boa amostra do que tem sido feito ao largo das grandes editoras. Impressos com a insígnia de casas jovens, ambos trazem vozes das ruas, a linguagem afiada dos botecos, das esquinas, da prosa mais corriqueira e desbocada, ignorando e rejeitando, por princípio estético, tons eruditos ou cosmopolitas. Se Lima Barreto retratou a hipocrisia do seu tempo, também objeto de estudo de Machado de Assis, este mais sutil, os cronistas da literatura marginal de hoje em dia trabalham com o resultado dessa hipocrisia: violência e morte.



Barbosa escreve para o seu tempo (contos curtos, concisos e brutais), do seu lugar (a periferia de São Paulo), com personagens extremamente realistas. Lúcida voz que surge, já na 7ª série, de uma escola pública de Itapecerica da Serra, estranhado por todos os amigos, solitário, transitando entre a sala de aula e a biblioteca. "O ato de escrever: matar um acadêmico por dia, uma forma de me manter vivo e controlar minha loucura por meio das palavras", explica. Numa época em que o amadorismo literário se embaraça em prosas fragmentadas, egocêntricas e às vezes incompreensíveis, revelando autores frágeis e deprimidos, Barbosa é como o arbusto que resiste no meio de um cruel temporal.

Seu primeiro conto, "Parada para o almoço", engancha de cara o leitor. Um homem elegante oferece pagar o almoço para o rapaz franzino, sem saber que ele é, na verdade, o dono do restaurante. Com a sensibilidade aguçada e o fator camaleão dos escritores, inclusive no desenvolvimento do eu lírico feminino, quando escreve em primeira pessoa como se fosse "A rainha da zona", Barbosa mantém o fôlego até o final do livro. Boa parte do que se lê pode ser interpretado não como obra individual, mas um coletivo encarnado nas letras. O conto que dá o título é uma horrenda história de assassinato, para lembrarmos que as coisas vão mal.

"A maioria das histórias, dos contos de O diabo na mesa dos fundos, são memórias da infância, das leituras dos filósofos e romancistas", conta Barbosa, que tem predileção por Dostoievski e considera Ulisses, da Odisseia, como o seu primeiro herói. "Aprendi a admirar muitos escritores e guardar seus nomes na memória", conta o autor em "Os escritores me criaram":

- Vadio! - gritavam. - Vadio! Vai trabalhar.

Escrito ao longo de seis meses, em 2012, o livro de Barbosa foi o quinto publicado pela editora Selo Povo, segmento da Editora Literatura Marginal (EML), do Ferréz. O autor já está trabalhando na sua segunda obra.



O professor de literatura brasileira contemporânea na Sorbonne, Leonardo Tonus, lembra que o termo literatura marginal foi criado em manchete da revista Caros Amigos, em 2011, sob curadoria do Ferréz. "Mais do que uma questão estética, esta terminologia expunha na época a dimensão social e simbólica de uma produção cultural excluída do campo literário nacional", ele diz, citando a estética hiperealista como característica fundamental dessa vertente, que ganhou força com a popularização dos saraus na periferia de São Paulo a partir dos anos 1990. "É uma literatura voltada cada vez mais para a cotidianidade do sujeito que também se expressa por uma escolha linguística menos acadêmica, rompendo com padrões eurocêntricos", acrescenta.



São Bernardo sitiada

As editoras Edith e Nós, em uma coedição, lançaram na última Festa Literária de Paraty (Flip) o livro de contos do jornalista Paulo Junior, vencedor do Prêmio Toca de Literatura 2017, São Bernardo sitiada, que estará disponível para venda a partir de setembro. A história do título, logo no início, revela o talento do autor para metáforas, descrevendo um cenário brutal de maneira abstrata, recorrendo a cores, texturas e imagens aleatórias para expressa o ambiente em que se encontra. O leitor precisa ter o mínimo de sensibilidade poética se quiser extrair dali os sentidos mais profundos. Esse recurso estilístico é menos utilizado nos outros contos, de uma estética mais concreta.

Paulo Junior escreveu parte das histórias em oficinas com o escritor Ronaldo Bressane, autor das orelhas do livro - oficinas que Junior reconhece como emuladores da escrita do anfitrião -; a outra parte foi criada em meio a reuniões com outros escribas sob as asas de Marcelino Freire, o poeta pernambucano. "Nunca tinha levado a sério a ideia de oficinas de escrita, só de pensar naquela turma competindo quem lê Hemingway no original ou qual vai ser a primeira intervenção onde alguém vai dizer que aquilo é meio, sei lá, kafkiano", ironiza ele em um dos contos, quando conta que resolveu aderir aos cursos após um episódio de fracasso amoroso.

Uma das qualidades do autor é a capacidade de acelerar e diminuir o tempo das narrativas, revelando um apego pela forma, sem perder jamais as sacadas lúdicas e o ritmo quase falado em cenas que poderiam, na pena de outro autor, se prolongar em detalhes e descrições mais densas, precisas e detalhistas: "A rua das Estribeiras parece a perna ralada de um motoboy que caiu na marginal." Sua clara intenção é passar sensações suburbanas, e não fazer tricô à moda do século 19.

Assim como em O diabo na mesa dos fundos, roubos e assassinatos são recorrentes em São Bernardo sitiada. Por exemplo, em "A última cena", dois ladrões ficam presos em um elevador enquanto a moreninha do 12 trepa com o surfista chapado do 34 nas escadas do prédio. Eles são alvejados por um policial que também morre baleado na troca de tiros. "Moreninha goza de susto. O surfista, pau pra fora, tropeça no conhaque antes de chegar à cena do crime." Metalinguagem: a história vira script de teatro nas mãos da moreninha. Ela fica famosa, mas somente na sua própria imaginação.


Paulo Junior, Paulliny Gualberto Tort e Aline Bei, lançamento casa Paratodos, Paraty 2017 
( Fonte editora NOS)

O melhor conto do livro ficou pro final. Linda, indubitável referência à Linda King, mulher do Bukowski, rouba a navalha criminosa dos outros contos e deixa um corte ainda mais profundo no peito do narrador. É quase como se ali estivesse a verdadeira justificativa para o trabalho de escritor. Ali também Paulo Junior mostra todas as frustrações vividas por jornalistas, escritores, enfim, toda a patuleia da escrita sem retaguardas. O velho Buck vem à tona, escancarado: o heroísmo está no aprendizado dos percalços suburbanos e na mais inflexível dureza editorial. Pra piorar, uma mulher despedaça o coração de quem recolhe suas lembranças como se fossem água escorrendo pelos dedos, irreversível. E o Palmeiras apanhando no campeonato - Linda era corintiana.

O amor é um cão dos diabos, mas rende boas páginas.

Antes de morrer, neste ano, Antonio Cândido declarou que não lia nada novo há vinte anos. Ele preferia os autores consagrados. Talvez quisesse dizer que devemos estar atentos aos romances para entender que a grande literatura pretende ser imortal. Não à maneira de um arbusto em chamas, mas como árvore capaz de atravessar os séculos, em nome da raça humana. “Cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político. E o dever da atual geração? Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.”

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Perambulando entre artistas e filisteus, Bruno Cirillo, 27 é jornalista em busca histórias da contemporaneidade, sem perder de vista as referências clássicas. Colabora com as revistas Piauí e Globo Rural


terça-feira, 29 de agosto de 2017

A espera/ à espera:

Arquivo pessoal
a espera/ à espera:
figurações do contemporâneo

l’attente/en attente :
figurations du contemporain

Simpósio Internacional
UNIVERSITE PARIS-SORBONNE/ PUCRS
(04/outubro, 06/outubro e 07/outubro de 2017)

Local: UNIVERSITE PARIS-SORBONNE

(Organização Prof. Dr. Leonardo Tonus/ Prof. Dr. Ricardo Barberena)


                                             
Pensar em algum futuro agora?
Não, devemos esperar.
Refugiado sírio no Líbano

                                               La patria sarà quando
tutti saremo stranieri
Poema de Francesco Nappo


Em pleno século XXI, o planeta tem vivenciado o surgimento de lugares de retenção. Qualquer área – como ginásios esportivos, instalações industriais desativadas, hangares e corredores de aeroportos – pode ser convertida em campo, isto é, num espaço anônimo, uma zona cinzenta posta à margem da ordem jurídica normal, onde se dá a intersecção do Estado de direito com aquilo que atenta contra ele.

Nosso tempo tem sido marcado pela racional contenção dos refugiados/refugados. O “campo de retenção” se organiza como uma espécie de plataforma preparatória da expulsão dos estrangeiros indesejáveis. A expressão mágica tem sido “controle dos fluxos” de imigrantes para garantir a segurança.

Ao andar pelo território interditado, os caminhantes clandestinos acabam por evidenciar uma irrevogável inconclusibilidade do espaço e dos seus intermináveis textos, agentes e devires. Seus passos carregam tramas na sola e tecem uma escritura constelar na qual infinitos significados se cruzam numa errática coreografia de uma possível resiliência. Quantas tramas e quantos traumas se escrevem « com » e « nas »solas dos seus sapatos? São apenas passantes invisíveis ao nosso olhar que não deixam marcas de ocupação e perturbação em espaços adversos às suas presenças. Caminham, mas não escrevem com o seu caminhar. 

Frente à incomunicabilidade contemporânea, parece impossível que não ocorra um questionamento referente ao conceito de fronteira. Dentro de uma releitura crítica, tal conceito não é mais associado unicamente à demarcação dos limites coesos da nação moderna, mas também é repensado como uma liminaridade interna contenciosa que promove um lugar do qual se fala sobre a minoria, o exilado, o marginal e o emergente. Nesse sentido, percebemos uma mudança no enfoque analítico: o conceito de fronteira, antes apenas concebido em relação a um espaço “exterior”, agora apresenta-se ligado à finitude interior do território nacional. Em consequência, podemos começar a pensar uma nação que se organiza através das diferenças existentes dentro do seu interior, em visível oposição ao funcionamento daquela antiga lógica da exterioridade que se sustentava pela busca dos contrastes entre duas ou mais culturas. Dito de outra forma, esta releitura crítica do conceito de fronteira procura desconstruir aquele signo da modernidade – a nação – que se encontrava pautado por um apagamento das diferenças culturais e por uma visão horizontal da sociedade. Daí a problematização, justamente, de um discurso nacional que se estrutura pela denominação de um povo em termos de um anonimato de indivíduos circunscritos à horizontalidade espacial de uma comunidade [supostamente] hegemônica. Visto deste ângulo, a fronteira representa um lugar onde se articulam as diferenças culturais numa perspectiva de negação da naturalização da normalidade e da unicidade: um espaço não linear e descontínuo, um espaço do entre que já não coincide com  geografia alguma, um espaço solidificado à imagem  dos  mares e oceanos do planeta.

Mas como é possível coalhá-los e petrificá-los?  As fronteiras e os controles (oficiais e não oficiais) são capazes de embarreirar as agitações do mar? Talvez essa seja uma potente imagem para traduzir nossos traumas contemporâneos: um mar-em-pedra. Se “o mundo é mesmo de cimento armado”, como adverte o poeta Carlos Drummond de Andrade, restam poucas esperanças para livres migrâncias e deambulações identitárias.  Náufragos no mar-empedrado, prisioneiros de caminhos ambulantes, milhares de pessoas são mortas pelas proibições de sólidas racionalidades. Na imobilidade desses mares-secados, o “desmedido derramar-se” é censurado pela coercibilidade contemporânea. Aquele mar idealizado que vai para “tudo quanto é lado” parece cada vez mais distante na crise dos migrantes, dos refugiados, dos deslocados e demais excluídos de nossa contemporaneidade.

Da land art às artes performáticas, o caminhar se transforma num meio de cortar caminhos estabelecidos e desafiar o cercamento/cerceamento do espaço público. A sua função política e estética pode ser resumida na definição de Ingold para a caminhada: “o modo fundamental pelo qual os seres habitam a Terra” (Ingold). Ao deixar uma marca no chão e na imaginação, o caminhante traça a vida humana “pela linha do seu próprio movimento” (Careri) de maneira que o escrever e o andar se misturam no próprio agenciamento identitário, pois é na “narração da história, com o movimento de um lugar a outro – ou de um tópico para outro – que o conhecimento se integra” (Ingold).

Como fica a situação dos que são proibidos de caminhar? Aqueles refugiados que não podem trilhar a alegria encontrada na liberdade da estrada? As vidas-que-não-podem-caminhar estão barradas inclusive em termos narrativos. Como podem circular estórias que não caminham?

Se de modo geral “a humanidade raramente viu o caminhar como um prazer” (Marples), a simples deambulação do ex-cêntrico torna-se traumática nas paisagens identitárias de uma urbanidade supostamente homogênea. Não há como silenciar sobre esse trauma contemporâneo. O caminhar em uma territorialidade clandestina pode abalar certas convicções, pois, ao longo de uma caminhada, “os pensamentos perambulam a esmo, farejando aqui e ali, experimentando a primeira coisa e depois outra” (Kierkegaard). Pensada nesses termos, “a saúde e a salvação só podem ser encontradas no movimento” (Kierkegaard) Talvez tenhamos que reinventar nosso viver juntos contemporâneo através do compartilhamento de uma história que começa ao rés do chão, com passos.    
                                                   
            É preciso então que habitemos uma territorialidade de encontros e contágios. Seria urgente uma caminhada pelo imaginário bosque criado por C. S. Lewis (1995) – “Entre-dois-mundos” – onde tudo parece banhar-se na cálida luz verde de uma manhã perpétua. Nesse lugar tranquilo, propício ao sonho, há pequenos lagos que dão acesso a milhares de outros mundos. Só é possível ouvir o som das árvores que crescem. A água desses lagos tem a peculiaridade de não molhar a pele dos que nela mergulham e dela emergem. Lastimavelmente, trata-se de um lugar ficcional. Os mares e oceanos de nosso planeta,  o campo literário, os espaços políticos e sociais, entre outros, têm se transformado em espaços de espera  onde se conjugam às barreiras-entre-dois-mundo a morte e o próprio desfalecimento da espera.

Este Simpósio Internacional  –  que reunirá pesquisadoras, pesquisadores, escritoras e escritores de diversas instituições acadêmicas e espaços culturais –  pretende abordar alguns destes movimentos, e suas intermediações, tentando captar suas consequências no campo literário e no interior das obras literárias. Ele surge dos diálogos estabelecidos entre estudiosos de literatura contemporânea marcando a consolidação da cooperação entre duas instituições de ensino superior: a PUCRS e a Université Paris-Sorbonne. As diferentes procedências dos participantes apontam para as diferentes perspectivas teóricas e metodológicas que estarão em debate no encontro. Estarão em discussão, portanto, desde questões mais teóricas, necessárias para a análise das obras literárias em seu conjunto, até estudos  pontuais sobre livros e autores específicos, incluindo ainda interpretações sobre o campo literário atual. Todos os trabalhos trarão como preocupação central o fazer literário e artístico na contemporaneidade.

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Os trabalhos podem ser apresentados em português e em francês. Enviar proposta de títulos, acompanhada de um resumo ( entre 10 e 15 linhas) e de uma minibiografia com afiliação institucional até o dia 7 de setembro de 2017 aos organizadores :

Leonardo Tonus : leotonusbr@hotmail.com

Ricardo Barberena : ricardobarberena@hotmail.com


A imaginação, o mundo, a dor, Caterine Pacheco



A luta silenciosa no octógono dos livros


A luta silenciosa no octógono dos livros

Henrique Rodrigues

Minha primeira grande imersão no mundo dos livros aconteceu na biblioteca do Ciep Dr. Adão Pereira Nunes, em Irajá, no ano de 1986. Não preciso explicar o que são (ou foram) os Centros Integrados de Educação Pública, pois esse modelo de escola idealizado pelo Darcy Ribeiro se tornou bastante conhecido. Mas afirmo com toda segurança que foi o último grande projeto educacional que chegou pra valer no Rio de Janeiro. Há 30 anos.

Na época eu tinha 10 anos, meu irmão 11. Morávamos na Pavuna e nossa vida começava outra fase, por conta da separação – nada amigável – dos pais. No meio daquela novidade toda, as instalações do Ciep eram imensas aos meus olhos, cuja referência diária de grandeza ainda era a extensão do rio Guandu, lá da lonjura de onde saímos. Aquele castelo, que nos oferecia refeições, psicólogo, óculos, aulas o dia inteiro e atividades de todo tipo, me apresentou duas coisas para a vida toda.

A primeira era a presença de um animador cultural, figura que não era professor mas ensinava, não era colega porém tinha o lúdico na ponta da língua, e uma vez disse algo importante pacas – sem que me desse conta, porque na hora não entendi: “Todo mundo precisa de vez, voto e verso.” A cada ano, a cada situação de vida, de trabalho e de observação da sociedade, essa frase adquire cada vez mais sentido.

E a segunda foi a biblioteca. Claro que já conhecia livros em estante e por isso vou entrar numa viela da digressão. Minha tia com melhor condição financeira (porque todo pobre tem um “parente rico”) possuía livros em casa. A maioria kardecista, que eu adorava folhear porque parecia coisa de ficção científica. Inclusive eu brincava de ser escritor porque um volume do acervo era escrito por um tal “prof. Henrique Rodrigues”, que certamente já desencarnou mas me deu uma ideia de sonho. E no meio daquela livrarada toda de espíritos tinha um livro cuja dedicatória era “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”. E foi assim que passei vários anos pensando que “Memórias Póstumas de Brás Cubas” fosse um livro psicografado.



Digressão concluída, faço um balão na estrada da memória e volto à rua do Ciep. Naquele lugar havia sempre uma pessoa dedicada com quem eu gostava de falar sobre várias coisas, sobretudo as coisas que via na enciclopédia Delta, que era um tipo de Google mais lento e, talvez por isso, mais legal. Quando fui superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, fiquei abismado ao descobrir que a última vez que houve contratação de bibliotecários para a rede foi na época do Ciep. Esse profissional, que é e um dos principais mediadores do acesso à informação e ao conhecimento, tornou-se um ser em extinção numa rede cada vez mais depauperada. Não sei dizer ao certo o que é causa e efeito.

Mas preciso confessar uma pequena transgressão: gostava de matar algumas aulas que considerava chatas para ficar na biblioteca do Ciep. Era silenciosa e povoada de histórias e ideias. Ou, pelo menos, de histórias e ideias que me povoavam.

Meu último ano do Ensino Fundamental foi em outro Ciep, o Carlos Drummond de Andrade, na Praça Seca. Foi ali que ganhei um concurso de frase que me fez falar “quando crescer quero ser escritor”, o que foi motivo de riso de uns. Riso que entendo só agora: o mundo dos livros não é valorizado moralmente no Brasil por muita gente. Somos uma minoria. Isso pode ser mudado ainda, mas deve levar muito tempo com bastante investimento baseado numa política clara e com perspectiva. Pensando hoje, em 2017 e com essa conjuntura, não me parece algo da ordem do dia.

Mas uma coisa é o mundo, a sociedade et coetera, outra é a nossa responsabilidade individual. Passado o tempo, a brincadeira com o livro da minha tia continuou e acabei virando escritor mesmo. Não o melhor da minha geração (quando o jornal me perguntou por que não concorri para a Granta, falei que queria apenas ser o melhor escritor do meu prédio), mas talvez não um dos piores. Entre o trabalho para ganhar o feijão com a arroz e os compromisso ordinários da vida, gosto muito de visitar escolas e aprender com a molecada.

Há uns anos visitei o Ciep Rubem Gomes, em Costa Barros, para ler com a garotada e falar da importância dos livros e da imaginação. Pouco tempo depois, soube que o jovem Wesley Gilbert Rodrigues de Andrade, de 11 anos, aluno de lá, foi atingido por uma bala perdida enquanto assistia à aula. Esse tipo de notícia é recorrente nos jornais. Ontem mesmo (05 de julho de 2017) uma menina de 14 anos também levou um tiro dentro da escola em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Ela sobreviveu, mas a bala permanece alojada no corpo.



Fui uma vez ao primeiro Ciep e várias vezes no segundo. Ano passado inclusive, quando a escola foi depredada e roubada. Levei uns camaradas de ofício e fizemos um evento chamado Poemaço, com leituras, oficinas e bate-papos. Professores, alunos e demais funcionários ficaram bem felizes. E ainda merendamos.

Posso dizer em alto e bom som: sou privilegiado. Muito privilegiado. E isso não é bom, pois ser exceção diante de uma regra cruel é algo a ser combatido. Porque numa das visitas ao Ciep Carlos Drummond de Andrade, enquanto falava lá dentro da biblioteca, uma menina me perguntou com toda franqueza: “Como você estudou aqui e foi em frente na vida? É que quem estuda aqui...”. Por mais que eu tivesse levado meia hora respondendo a ela, saí de lá sabendo que o discurso que a levara a essa conclusão continuaria sendo martelado todos os dias. Chorei pacas, mas não desisto. E volto lá sempre que possível.

Porque ainda ecoam na minha cuca aquelas histórias e ideias que foram plantadas. Elas me provocam, instigam e obrigam a arregaçar as mangas. Aprendi a batalhar numa biblioteca em forma de octógono, numa guerra que segue lenta e silenciosa, como são as mais importantes que travamos ao longo da vida.

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Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa “Oi Kabum!” Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional, entre os quais o Prêmio Sesc de Literatura. Participou de várias antologias literárias, organizou algumas e é autor de 12 livros, entre poesia, infantis, juvenis e o romance "O próximo da fila" (Record), inspirado no período em que foi atendente do McDonald´s. Site do autor: www.henriquerodrigues.net

domingo, 27 de agosto de 2017

Nossos medos




Nossos medos

Leonardo Tonus

Sempre que estou em Berlim. Gosto de vir até aqui. Ao Gedenkstätte Berliner Mauer. O Memorial do Muro de Berlim. Memorial. E não museu. Como sublinha o termo em alemão. E que alude ao que subjaz a memória. A nossa capacidade de nela pensar. Quando eu venho a Berlim e ao Gedenkstätte Berliner Mauer, ich denke. Eu penso no quanto minha geração foi marcada pelos medos. O medo avassalador imposto pela ditadura militar. O medo inconsciente do fim do mundo que pronavam os ideólogos da Guerra Fria. E o medo que exibiam os filmes de catástrofes da época. Tubarão. Invasão de formigas. De piranhas. De abelhas. Arranha-céus pegando fogo.  O Day After. O terrível Koyaanisqatsi. Koyaanisqatsi. Koyaanisqatsi. A frase repetida sob a hiponotizante música de Philip Glass. Evocando a vida moderna fora do eixo natural. Cada vez mais acelerada. Mais destruidora. E amedrontadora.


Nossa geração foi a geração do medo. De um medo insidioso que penetrou todas as esferas do cotidiano. Eu tinha medo do escuro. De altura. De ser enterrado morto-vivo. Tinha medo da professora. De ovnis. Eu tinha medo de cachorros. Eu tinha da polícia. Da violência. Eu tinha medo de beijar as meninas da escola. Eu tinha medo do sexo. Que continuei a temer  quando  jovem. E quando descobri a Aids. Naquela época tínhamos medo dos outros. De tocar os outros. De nos tocarmos uns aos outros. Tínhamos medo de amar. Eu também tive medo de amar. E talvez ainda tenha. Mas hoje são as formas de ostracismo que temo.  Por isso eu gosto de passar pela Bernauer Strasse. E parar alguns instantes no Memorial do Muro. Parar. E pensar.


E  penso  o quanto  hoje são raros pelo mundo espaços do pensar. De um pensar conjunto. Pelo. No. E com o silêncio. Hoje desconhecemos o valor dos silêncios. Pelos estádios. Pelas igrejas. E pelos Senados. Gritamos. Pelas ruas berramos. E indecentemente pelas sacadas de nossas varandas amassamos covardemente panelas. Hoje gritamos pelas redes sociais. Esquecendo  o valor do silêncio. Que é sempre capacidade e possibilidade da escuta do outro. Que muros ensurdecem.  



Hoje sento na grama do Gedenkstätte Berliner Mauer. Estou rodeado por passantes. Crianças brincam de corre-corre. Cachorros lambões dormem preguiçosamente so sol. Hoje sento na grama do Gedenkstätte Berliner Mauer e penso. Penso nesta grama-cicratiz. Húmus dos que também tiveram medo do silêncio que um muro covarde lhes impunha. Penso em  Ida Siekmann. Em Bernd Lünser. Em Jörg Hartmann com seus dez anos de idade. Em Winfried Freudenberg no dia 8 de março de 1989 morto ao tentar sobrevoar o muro com seu balão.  Eu penso nas vítimas deste muro.  E de outros tantos muros pelo mundo afora. Penso  hipnotizado por um absurdo no trespassing. No trespassing. Fora. Fora. Por um absurdo ostracismo.  Penso hipnotizado nas formas da exclusão. Da xenofobia. Da homofobia. Da misoginia. Hipnotizado penso na obscenidade de nossa humanidade. Sentado na grama do  Gedenkstätte Berliner Mauer. Penso. Choro. E grito. Silenciosamente. Sem medo. 


sábado, 26 de agosto de 2017

Leonardo Tonus no Marca Página



Leonardo Tonus no Marca Página

O professor e pesquisador Leonardo Tonus foi o convidado especial do programa Marca Página do mês de Agosto.  Leonardo Tonus é Maître de Conférences Habilité à diriger des recherches no Departamento de Estudos Lusófonos na Universidade Paris-Sorbonne (França). Na entrevista, ele fala sobre a Literatura brasileira contemporânea e sobre as mudanças na última edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. Ouça também, nesta edição, a entrevista com o escritor Raphael Rocha, finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2016 na categoria contos.


Para ouvir a entrevista clique no link : Entrevista Marca Pagina


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Histórias tristes precisam ser contadas



Thiago Camelo

HISTÓRIAS TRISTES PRECISAM SER CONTADAS
e as felizes também.
como se dissessem Você precisa deixar rastros.
Como se falassem Pense nos fatos.
Como se dissessem Lembre
lembre-se dos fatos que o forjaram
dos gestos inaugurais.
E mais
lembre-se de quando percebeu que os momentos
muitos deles irrelevantes a qualquer um
esses momentos na verdade eram seus, era você.
Você pode se ocupar da infância e ir direto à Coca-Cola
ou pode se lembrar da adolescência
do dia em que descobriu
fascinado por descobrir sozinho
que um farmacêutico criou a Coca-Cola
e o sócio, um contador
fez aquele logotipo insinuante com a própria caligrafia.
Você pode pensar nos publicitários
um exame sobre a sua vida adulta
se enxergar nas propagandas aviltantes.
Ou pode acreditar na beleza do desenho
os C C maiúsculos e irmãos
a onda ~ que flui para dentro do ℓ
o traço – o hífen mais certeiro do mundo.
Ou você pode lembrar que a Fanta
um produto The Coca-Cola Company
foi criada pelos nazistas
das erfrischende Getränk
e pode considerar a quantidade de benzeno na
                                                  [Fanta Laranja
e aí pensar em câncer
em guerra.
Mas pode também se deter na cor laranja do
                                                   [refrigerante
na fixação infantil à Fanta Uva
ou descobrir que em Hong Kong existe a Fanta Láctea
sabor leite.
Ou pode simplesmente abrir uma Coca-Cola
ou ir a uma máquina de refrigerante e
ao seu gosto
dosar o gás e o xarope.
Pode cantar Alegria, Alegria
pensar em filmes e nos peitos da Brigitte Bardot
se sentir atraído pelo Caetano jovem
pelo Caetano velho.
Ou pode olhar o Sol
e quem sabe não lhe venha o Van Gogh
a ideia de que
se houver deuses
o Sol seria um bom deus
Van Gogh acreditava nisso
não, Van Gogh acreditava em um Deus único
mas, sim
Van Gogh pintava sóis como se fossem deuses.
De dentro das pinceladas espirituais de Van Gogh
você pode chegar àquela frase de seu amigo
como não levantamos para ver o Sol nascer todos os dias
ou ponderar que é exatamente por isso que não
                                                       [levantamos
nascer todos os dias é igual a não nascer nunca.
Mas você pode
como sempre
tropeçar no Pessoa
abrir o livro em uma página qualquer e ler

Nunca poderia odiar uma terra em que eu houvesse visto
um poente escandaloso.

E lembrar que de fato você já viu um sol único
alguns sóis únicos
no fim de tarde mais do que de manhã
porque você acorda tarde.
Ou pode se transportar para a tarde fria de outubro
em que a luz de Lisboa, logo a luz de Lisboa
estava branca e dura como a de um hospital.
De lá, com medo e afeto, você pode querer voltar
dormir em Copacabana
e você ama Copacabana e houve tantos dias felizes
                                                      [em Copacabana.
Você pode lembrar todos os regressos a Copacabana
a saída do metrô da Siqueira Campos sempre o
                                                          [emociona
o cheiro de maresia, ali é a sua casa e sempre vai ser
ali o barulho não incomoda.
Ainda assim, você pode ir andando até o Forte
sentar no teto da casamata
sentir por horas o silêncio
a vibração da cidade desligada
olhar o mar do Rio de outra perspectiva
e constatar
um disparate, não importa
que só você entende aquele lugar.
Talvez você pense Nem é preciso estar atento
e você pode descobrir
desatento
rochas semissubmersas
lajes distantes da costa
nas quais ondas se formam e quebram subitamente
como se naquele vórtice houvesse uma pequena praia
ou um pequeno oceano
um segredo de surfistas.
Você pode imaginar as ondas desfazendo as
                                        [moléculas de água
ou pode anotar num papel verbos que o sensibilizam
condensar, afastar
colapsar, romper.
Pode pensar na película de água
no momento do mergulho
quando o corpo vence essa fina resistência
vislumbrar uma boa foto
ou continuar
homem–fundo
imergindo.
Você pode se lembrar de 2011
quando leu sobre a Fossa das Marinas
o ponto mais extremo do oceano
você se lembra?
O texto dizia Onze mil metros de profundidade
o texto dizia Antes de alguém pisar na Lua
dois homens conseguiram tocar a Fossa das Marinas
dizia Até hoje só outra pessoa visitou esse lugar
e doze homens já foram à Lua.
Quantos já escalaram o Everest?
Você pode pensar em pesquisar
ou pode tentar recordar a altura de cabeça
você sabe que não chega aos nove mil metros.
Você pode contrapor os onze mil metros do oceano
                                   [aos nove mil metros de terra
e você vai achar que a Terra está se afogando
você vai comparar o continente a uma pessoa com
                                                 [água até o pescoço.
Ou você pode se desligar de imagens que dizem pouco
e pensar no japonês que aprendeu a mergulhar aos 60
você não recorda e talvez precise de mais detalhes.
Você pode tentar desvelar a memória
pode não conseguir
ou pode lembrar que o japonês buscava o
                                      [corpo da mulher
pode lembrar que ela morreu no tsunami de 2011
lembrar que ele a procura até hoje.
É possível que isso o comova novamente
e que você se faça a mesma pergunta
se fosse a terra ao invés do mar
esse homem continuaria procurando?
Você pode ficar na terra
andar por florestas e montanhas.
Até onde chega um tsunami?
Ou pode olhar para o céu e sair da galáxia
ou recuar e sair apenas do Sistema Solar
esbarrar nos corpos que orbitam a Próxima Centauri.
Pode dançar no espaço como moléculas de água
quem sabe ser tragado pela gravidade do planeta
                                                             [habitável.
Ou pode se manter no fundo do oceano
olhar no olho de um cachalote
lembrar que encontram de tudo dentro do estômago
                                                       [de um cachalote
até pedaços de motor de carro.
Ou você pode lembrar que o cachalote é o animal com o
                                                        [cérebro mais pesado
e o cachalote também é o maior animal com dentes
você já leu sobre isso quando ficou obcecado por
                                                                [cetáceos.
Então você já deve saber
no estômago dos cachalotes
foram encontrados animais desconhecidos
espécies fronteiriças, semialienígenas
que vivem
ou se escondem
em águas abissais.
Talvez você imagine
nas entranhas do cachalote
corpos preservados
ou em pedaços
uma lula-colossal
ou a perna do capitão Ahab.
Você pode pensar no cachalote como um
                                      [oceanário morto
um repositório de carne e carcaça.
Ou pode querer escrever cachalote em caixa-alta
você tem essa vontade.
Não seria difícil se lembrar daquele museu.
Era um museu?
Era uma exposição no Jardim Zoológico da
                                           [Berlim Oriental
você leu sobre ela
você escreveu um e-mail com um trecho da reportagem

“Num mostruário de vidro foram colocados todos os objetos
encontrados dentro do estômago de uma morsa (um grampo
de cabelo, palitos de sorvete, um isqueiro cor-de-rosa,
óculos de sol, um carrinho de plástico verde, um pente de
metal, uma chupeta, uma lata de cerveja, uma bússola).”

Aquilo o impressionou, certo?
E algo começou a soprar
uma intuição que você sabia autoindução
mas também uma vontade desencorajada
pois você sabia, sempre soube
que não pode ser tudo.
No entanto, o sopro
como o sopro de um animal menor que você
chegava leve e você só conseguia chamar de
                                        [irresponsabilidade
uma irresponsabilidade decisiva
luminosa, irrecusável
você quer poder tudo
se condenar a querer
ou não se esforçar
dizer Hoje eu não vou me esforçar.
Você já pensou em ser guarda de museu
já pensou em observar o dia inteiro
ao mesmo tempo
obras e pessoas.
Você já pensou Ser guarda de museu
o que você poderia testemunhar
o que poderia admirar
odiar calado, porque
afinal
você é um guarda de museu e opinar
felizmente
não é sua obrigação.
Como reagiria
ou como não reagiria você, guarda de museu
àquela instalação-performance
camas espalhadas numa sala
luz baixa
música incidental, barulho de cachoeira
cobertores com maracujás gigantes estampados
todos têm que dormir, diz o panfleto
inclusive o autor da obra
por isso não se incomode
vou grudar eletrodos na sua cabeça
eles vão monitorar o seu sono.
Você olha para o guarda de museu
para o telão que transmite as ondas de
                               [atividade cerebral
ao lado da sua onda, uma luz vermelha
os dois
você e o guarda
são os únicos acordados.
Você o inveja, é necessário admitir
você inveja a calma
ou o desprendimento de quem não tem que.
Você não suporta esse sentimento
você pode querer fugir dali.
Ou pode se abrigar no quadro Mi Joven Amiga
pode morar nos fios de cabelo desta mulher
ou nos fios, nos mil fios do suéter de lã
ou no chapéu
nos milhares de pelos de algum animal morto
                              [que ela carrega na cabeça.
Você pode morar no olhar desta mulher
no tempo desta mulher
na juventude dela
ou pode se afastar
notar a moldura de ouro
a parede branca
os bancos desconfortáveis do museu
pode ver o guarda bocejando
pressentir não só a monotonia
que seria suportável e muitas vezes desejável
mas também o tédio interrompido
visitantes que perturbam o equilíbrio entre
                                          [o ócio e o nada
eles querem saber onde fica
pois não conseguem descobrir sozinhos onde
afinal
fica o banheiro.
Você pode continuar se afastando
desaparecer do museu em linha reta
ou dar meia-volta
observar aquela estrutura sem sentido
que você ama
porque tirou a arte da sala dos ricos
que você nega
porque cobra pelo ritual
pelo valor simbólico das obras.
O valor simbólico das obras.
Você pode se lembrar do Van Gogh e da miséria
e pode se apegar a isso e seguir em frente
resiliente
ou pode pensar no Picasso e na vaidade
no egoísmo, na ingratidão, nos maus-tratos
pode querer o que ele teve
ou pode dizer a si mesmo
aceito tudo
aceito a falta de aptidão e o ostracismo
aceito vagar pelo mundo como uma alma
uma alma, infelizmente, de artista sem talento
mas com uma missão
não ser como o Picasso.
Ou pode olhar uma luz branca e vislumbrar
talvez eu veja algo aqui, talvez um pássaro branco
mas pode ser o mar, uma onda.
Você pode ter vontade de compor uma música
ou pode nem abrigar o pensamento
desacreditar e se distrair com a manchete
                                     [que acabou de ler
traumatismo ocular na era dos black blocs.
Você pode clicar no link, ler novamente a manchete e
                                                                 [fechar a aba
ou pode ler a matéria inteira e admitir que é sério
há um simpósio de oftalmologistas sobre isso.
Você pode achar que todo mundo ficou maluco
ou pode entrar no Facebook e postar a notícia
comentar com palavras de cachalote
todo mundo ficou maluco.
Pode sentir um alívio imediato
ou pode se arrepender imediatamente
e mergulhar na culpa de ser humano e
ainda assim
ou quem sabe por isso
ter que se sujeitar a comandos rudimentares
como aquele que associa felicidade a recompensa
como aquele que contrapõe ordem/caos.
Você pode se lembrar da necessidade triste
constrangedora
de organizar as ruas
a nossa continuidade
por meio de sinais de trânsito.
Essa frustração pode habitá-lo como uma pedra.
Ou pode atravessá-lo como um rio.
Uma resignação milenar
ou um fluxo de medo e coragem
você pode sentir tudo ao mesmo tempo
ou pode conseguir escolher o que o atinge.
Pode se recolher ao aprendizado solitário
ou pode
em meio ao maravilhoso deserto da solidão
lembrar-se de Yip Man, o mestre de Bruce Lee
e assim repetir e repetir em voz alta
Até o Bruce Lee teve um mestre.





Essa repetição o acalma.
Você segue com ela
aprende como um discípulo
você erra
por mais que tente
você erra.
Você se defende do impossível
você ataca o vento
nenhum erro
até que erra.
E você erra muito
erra o tempo inteiro
e continua errando
até que não haja distinção entre os erros
são sempre erros
são sempre iguais.
E você pode se perguntar
é possível cometer novos erros
ou todos os erros já foram cometidos?
E você pode desistir de errar
e desistir de tudo
ou pode querer errar de outra forma
e iniciar um novo ciclo
sabendo que tudo voltará ao início
ou recusar tudo
inclusive a ideia de início.
Restaria uma pergunta
o que fazer se tudo ficar bem?
Isso pode lhe dar sono
ou insônia
e você olha o seu gato dormindo
e cogita a hipótese de os animais não terem insônia.
É uma doença do homem, você pode pensar
mas não é, você já leu
cachorros podem sentir insônia
animais matam a própria espécie
animais cometem suicídio
mas apenas o homem elabora a própria ausência, diz o artigo.
Você pode refletir sobre o lugar da consciência
ela está em você
está em você e nos animais
ou está entre vocês
no lugar do gesto e do contragesto
no espaço entre os corpos
como em uma dança.
A última hipótese sempre o confortou
mas em algum momento você pode se incomodar
afinal, você sempre soube
você humaniza os animais
você humaniza as plantas
você humaniza os objetos.
Você pode se opor à autoconsciência
ou pode achar a questão inócua
a autoconsciência existe, assim como a projeção.
Os animais são humanos porque tenho medo
As plantas são humanas porque tenho medo
Os objetos são humanos porque tenho medo.
Pode pensar no mosquito
quando você não sabe se o apanhou
quando sua mão ainda está fechada no ar
ele já sabe que foi capturado?
Você pode cerrar a mão com toda a força
tentar esmagá-lo
pode relaxar os dedos
tentar matá-lo com a outra mão.
Ou ele pode voar quando você abrir a mão
sem saber que aquilo era sua mão
sem saber de nada
mas, sobretudo
sem saber que morreria
que só não morreu porque você é lento.
Ou você pode pensar que os animais são velozes.
Pode se lembrar do dia em que observou
com uma lupa
os detalhes de uma aranha capturando um inseto.
Você viu os olhos do inseto
os relevos do corpo do inseto
as patas da aranha
as dobras de cada pata da aranha
as aranhas tecem rápido, você notou
mas demoram para comer.
Você pode se recordar da luta entre paquidermes
rinoceronte versus hipopótamo
e não só dessa luta, mas das disputas entre
                                       [todos os animais.
Você pode ir à internet
cachalote versus lula-colossal
há simulações de duelos entre animais
                   [de ecossistemas distintos
entre animais em extinção
entre animais que não existem.
Há quem conjecture batalhas entre
                  [dinossauros e dragões.
Você pode crer na infantilização do mundo
ou pode ficar horas assistindo no YouTube
                      [a simulações desses embates
pode se sentir um idiota
ou pode defender a tv
panfletar Toda informação vale a pena.
Você acredita nisso
mas não sabe lidar com os desejos
controla-se
ou se cansa
e se lembra do dia em que ouviu
entre o som de ares-condicionados
geradores, motores, baterias
tomadas, toda sorte de frequências
e muitas vozes
você ouviu um indivíduo
uma única pessoa dizer para uma única pessoa

Até essa sensibilidade cansar de mim, tudo o que eu fizer vai
ser para imitar o que vi.

Aquilo o desconcertou, e você passou dias pensando
que sensibilidade, o que vai ser feito
e, especialmente
você se perguntou o que foi visto.
Pode ser a morte
e você não pensa.
Ou pensa numa fruta caindo da árvore
ou se imagina pulando e constata
como um princípio básico de alguma ciência
que a fruta caindo é mais urgente
é fundamental que ela caia
é mais urgente que seu pés tocando
de volta
o chão.
Ou, finalmente
talvez você pare de fugir
e pense na velhice.
É isso que você quer
ficar velho
é isso que você teme.
Como se dissessem Você precisa pensar
Como se dissessem Pense nos velhos
os velhos chamam a mãe de mamãe
o pai de papai.
Você pode achar que é uma saudação à infância.
Ou pode achar que é medo
um deslocamento consciente
infantil.
Há outra hipótese, mas você apenas a tateia.
E se for desprendimento
uma maneira de alargar o tempo
não reconhecer um fim
não dissociar um começo?
A criança e a morte.
Você pode se deter nessa ideia
e não existe outra suposição
você quer se deter nela
portanto você se detém.
Você volta a pensar no sono
ou volta a pensar na inconsciência.
É a maior morte que se pode experimentar vivo.
A última sensação possível
você teme
a divisa entre o aqui e o nada
você teme
o último instante de atividade.
Depois, você sabe
os neurônios se apagam como as madrugadas
luz após luz, a sala, a cozinha, o corredor, o quarto
os olhos.
Você não consegue dormir
e você não para de pensar Todo bebê é igual
todo velho é igual
somos iguais quando nascemos
quando morremos.
Você se obriga a pensar
eu sou jovem
pele firme
ainda tenho viço.
Mas você sofre um contragolpe
os jovens também são iguais entre si
como os velhos e os bebês
muitos jovens precisam de pulseiras
algo que os identifique.
Não!
Como se dissessem Ser jovem
viver a pequena fatia da vida em que estamos aqui
em que somos nós mesmos
nos parecemos com nós mesmos.
Regar-se da própria individualidade.
Como não se confundir com o outro?
Como não se transformar no outro?
Você repete e repete Resistir é nossa maior batalha
resistir ao que nos quer destruir
resistir ao que nos quer igualar.
E, por ora, você pode não ser igual
é o que você quer
e você olha para o mundo
você se reconhece
e você se sabe desigual.
Você se pergunta todos os dias
como conciliar o fato de ser sul-americano
mestiço, falar português
como conciliar o meu lugar
o que sou
com aquilo que não sou
ou com aquilo que também sou.
Você tem respostas claras
ou fala consigo mesmo todos os dias
até se convencer da clareza
até não reparar nos detalhes
ou enxergar os detalhes com a vista distante
como quem usa um binóculo ao contrário.
Mas há o mindinho do pianista
mas há o pé do pianista.
Você pode rejeitar os detalhes
em geral é o que você faz
mas o que fazer com estes detalhes
coisinhas que habitam as galáxias e o fundo do mar
e o espaço entre as galáxias e o fundo do mar.
Há muitas histórias
como se dissessem Elas precisam ser contadas.

XXX


Thiago Camelo nasceu em 1983, no Rio de Janeiro. Também é autor de Verão em Botafogo (2010), A ilha é ela mesma (2015).

Descalço nos trópicos sobre pedras portuguesas ( Editora NOS) será lançado na próxima segunda-feira, dia 28 de agosto,  na Livraria Travessa de Botafogo às 19h00.

Livraria da Travessa (Botafogo)
R. Voluntários da Pátria, nº 97
22.270-000 Rio de Janeiro