segunda-feira, 22 de maio de 2017

Filha do trovão e do vento






Identidade
Meu nome é Elizandra
Filha do trovão e do vento...
Gosto de pensar as palavras
...ler os silêncios
...brincar com os livros
...amar é o verbo que mais sei conjugar
Passado, presente, futuro...
Eis que um dia rascunho... maré e terra...
Terra e maré... sou de água, mas sou de terra
Sou de terra e de mar
Quero sentar na areia, receber de leve uma maré
Amar com calma e velocidade
Com velocidade amar....




Meio-termo
Cansei dessa minha poesia educação
Com pernas cruzadas para não mostrar a calcinha
Dessas palavras cheias de entrelinhas
Que não dizem à que veio, cantadas não entendidas
Esse ar de “mocinha” escondendo a “puta”
Essas caras e bocas que não gritam e nem esperneiam

Cansei dessa minha poesia educação
Tão comportada, que irrita
Sempre como faca de dois gumes
Querendo sim, querendo não
Tão boazinha, que gosta de sal e açúcar
Sempre agridoce...
Essa atitude molhinho de pimenta
Que nem arde e nem tempera
Essa quentura banho-maria
Que não queima e nem gruda.


Rio
Hoje amanheci rio,
Não fico no mesmo lugar
Minhas margens não me comprimem
Minhas águas estão a navegar

Hoje amanheci rio,
Vou beber e me banhar
Não quero barco!
Hoje sou redemoinho, pode deixar
Não vou me afogar

Hoje amanheci rio,
Quero anoitecer me encontrando com o mar
Pescar estrelas
E adormecer na brisa do ar

Coroa Imperial
A Salamanda Gonçalves

Meu cabelo tem cheiro de flor...
Seja gardênia, violeta, rosas vermelhas
Livre! Ele exala e transmite amor
Embaralhado, embaraçando o mundo

Meu cabelo tem cheiro de flor...
Canela, açúcar mascavo e cravo
Mil cheiros, mil flores...
Perfumes de luta, espinhos da resistência

Meu cabelo tem cheiro de flor...
Amarílis - orgulho -, brinco-de-princesa
Mensageiro, como flor-de-lis
Vida - dente-de-leão, felicidade - flores do campo

Meu cabelo tem cheiro de flor...
Insistente como cacto flor no deserto
Tulipa vermelha, encanto de girassol
Coroa imperial que transborda poder!


Abelha mandaçaia
Tão solitária e negra como eu
Abelha Mandaçaia...
... sem produção de mel
Desabitada a procura de flor
Para bebericar do seu encanto...

Lápis de olhos...
... a esconder águas salgadas
Como não consolidar
este isolamento, que me consome?
Esta falta de mãos grudadas
... pele que não afaga
Estou rifando essa soledade!
Trançar, eu quero, mãos pretas...

É querência de mar, e não de oásis
Perenidades entrelaçadas...
Em estações lunares e solares...

Meu viver tornou-se deserto...
Os dias quentes e as noites congelantes
Um corpo sem afeto...
Repleto de roedoras,
Serpentes
E lagartas...

Peles bem alvas...
Alvejando-me por serem preferidas...
Será mesmo que elas resolvem
esses traumas de pretos meninos?

Em outras facetas, sou eu, serpente
Cascavel do deserto, como queira...
Movimentando-me em silêncio
Para que as inimigas não me vejam...

Sentimentos fósseis...
... expostos pelas erosões
A vida inteira sem beber águas...
Longos jejuns sem morrer...
Força bruta que me dilacera
Estes secos dias, sem chuvas...
Só poeiras machucando minhas retinas.


Em legítima defesa
Só estou avisando, vai mudar o placar...
Já estou vendo nos varais os testículos dos homens,
que não sabem se comportar
Lembra da Cabeleireira que mataram, outro dia,
E as pilhas de denuncias não atendidas?
Que a notícia virou novela e impunidade
É mulher morta nos quatro cantos da cidade...

Só estou avisando, vai mudar o placar...
A manchete de amanhã terá uma mulher,
de cabeça erguida, dizendo:
- Matei! E não me arrependo!
Quando o apresentador questiona – lá
ela simplesmente retocará a maquiagem.
Não quer esta feia quando a câmera retornar
e focar em seus olhos, em seus lábios...

Só estou avisando, vai mudar o placar...
Se a justiça é cega, o rasgo na retina pode ser acidental
Afinal, jogar um carro na represa deve ser normal...
Jogar a carne para os cachorros procedimento casual...

Só estou avisando, vai mudar o placar...
Dizem, que mulher sabe vingar
Talvez ela não mate com as mãos, mas mande trucidar..
Talvez ela não atire, mas sabe como envenenar...
Talvez ela não arranque os olhos, mas sabe como cegar...
Só estou avisando, vai mudar o placar...

Todos os poemas publicados no livro – Águas da Cabaça, Coletivo Mjiba, 2012.

Xxx



Elizandra Souza é escritora e jornalista, editora responsável pela Agenda Cultural da Periferia,  integrante do Sarau das Pretas e fundadora do Coletivo Mjiba -Jovem Mulher Revolucionária, que desenvolve ações focadas no protagonismo das mulheres negras e periféricas. Ativista cultural há 16 anos com ênfase na difusão da Literatura Negra e Feminina nas periferias de São Paulo. Coautora de Punga com o poeta Akins Kinte, Edições Toró(2007), autora do livro de poesias Águas da cabaça (2012) e organizadora da antologia Pretextos de Mulheres Negras (2013) e Terra Fértil, de Jenyffer Nascimento (2014), traz a experiência e a estética da produção literária que condensa periferia, negritude e feminismo. Idealizadora do evento Mjiba em Ação realizados no CEU Três Lagos nos anos de 2004,2005, 2012,2013 e 2014. Participou do Festival Internacional de Poesia em Havana (Cuba) em 2016.Realiza cursos e oficinas sobre a visibilidade da Literatura Negra e Feminina em parceria com Carmen Faustino. Atualmente também é terapeuta holística com formação em Aromaterapia e Perfumaria Botânica.






sábado, 20 de maio de 2017

Na fila, à espera de….

Na fila, à espera de….
Leonardo Tonus


Ninguém gosta de filas. Eu gosto. Filas sempre fizeram parte do meu cotidiano. Quem se lembra das filas à frente das padarias para se obter um litro de leite ? As filas nos açougues ? Nos correios ? Nos pontos de ônibus ? Quase ninguém hoje as pratica. As filas. Ou melhor. Só as praticam os quem ninguém vê. Ou quer ver. Na minha juventude havia sobretudo as filas nos bancos. Intermináveis filas nas quais perdíamos o dia todo.  Sem celulares. Ou qualquer outro aparelho de distração. Na altura, não se ouvia música nas filas.  Raros eram os que traziam, ao ouvido, o seu radinho de pilha. Para escutar o homem do sorriso do rádio. Os terrores de Gil Gomes. As chamadas matinais de Zé Bétio. Vamo levanta ! Joga água nele ! E os sucessos de Barros de Alencar. Minha irmã e eu gravávamos seus sucessos. Torcendo, todos os dias, pelo nosso cantor favorito.  Hoje ninguém mais come biscoito de polvilho em filas de médico. Ou pipoca doce de canjica em pontos de ônibus. Hoje ninguém flerta em filas. Eu flertava. E muito. Afinal tinha tempo, apesar de minha timidez.  Rapidamente quando a fila fazia a dobra, os olhares se cruzavam. Até a próxima. Até quando o flerte era atendido. Rompendo-se, então, a espera de um possível encontro.  Nas filas, vivíamos a tragédia da espera que fundamenta o seu território. E que não é somente esperança. Nas filas, comentava-se, sempre, o último capítulo da novela. Nas filas elaboravam-se narrativas. E vidas. Na minha juventude as filas não se limitavam aos espaços públicos. Compunham também o nosso ritual cotidiano. Penentrando os lares. Os namoros. Os Noivado. Os casamentos pontuados também pela espera das filas dos consórcios. Até meados da década de 90 tudo se comprava pelos consórcios. Televisores, videocassete, geladeira, máquina de lavar louça. E máquinas de costura. Minha vó pagava o carnê do Baú. Minha vó ganhou uma máquina de costura pelo Baú. A  máquina de costura de minha vó.  A máquina de costura da família, orgulhosa após tanta espera, na fila do Baú. Diziam que minha vó era analfabeta. Não era. Mas aos 60 anos ela foi ao Mobral para aprender a ler. E a escrever. Como seus netos que tanto admirava. Na casa de minha vó havia a melhor laranja lima do mundo. O melhor café com leite que já tomei, foi na casa de minha vó. Dela já muito falei em outros texto. E do gosto do Cleybon Cremoso que lá comíamos.  Esperávamos todos os dias por ele. 


Hoje ninguém mais concebe a espera como um território possível. Pois vivemos a era do atraso, como diz o velho ditado africano.  Que nos interroga, nós ocidentais, sobre a nossa falta de tempo. Apesar de usarmos relógios. E termos  tempo. Ou a vã impressão de o dominar. Hoje poucos habitam os espaços da espera.  Exceto, talvez, os subjulgados por ela. Vivendo a céu aberto a prisão da espera. Migrantes. Presos nos corredores da morte. Refugiados. Estes habitam a espera e o mundo do sem. Sem-teto. Sem-abrigo. Sem-direito. Sans-papiers. Sans-abri. Sans-domicile-fixe. Os sem-espera, como a literatura contemporânea. Desvalida de heróis e gestos magnâmicos, como diria Regina Dalcastagné. A nossa literatura, hoje, pratica e revindica a espera como possibilade de estar no mundo.  E pensá-lo, como estrutura aberta , à espera. Como o protagonista de Rubens Figueiredo em « O passageiro do fim do dia », um dos melhores romances que li nos últimos tempos. Como a Senhora Ramsay de « Rumo ao farol » de Virgínia Woolf. A partir da expectativa da visita ao farol, a autora constrói uma narrativa comovente sobre a espera e as complexas tensões e fidelidades existentes numa família. Como « Transit » de Anna Seghers que evoca a trágica situação dos refugiados políticos alemães na França durante o momento da ocupação. Como a narradora do « Die Mauer » de Marlen Haushofer que vai visitar seus amigos nas montanhas do Tirol. E por eles espera. Mas, ao acordar, se encontra rodeada por uma parede invisível. E passa a habitar o território da espera. À espera daquilo que já sabemos o que irá acontecer. À espera daquilo que também temia Robinson Crusoé. E que ela enfrenta. Diariamente. Com seu cão. Seu gato. Sua cabra. Sua vaca. Habitar o território da espera para melhor enfrentar a maior de todas delas, é o que conta esse livro. A espera daquela que Nilma  Lacerda evoca, brilhantemente, em « Um dente de leite, um saquinho de ossos ». Como Anita de Nilma Lacerda, também tenho um monte de pensamento esquisito. Como Anita também tenho muito medo. Dela, a derradeira. Mas hoje não. Hoje serei Anita. Hoje, vou usar o melhor vestido. Já preparei o chá e uns bolinhos gostosos. E à espera dela estou. Sem temores. Sem rancores. Querem conhecer a minha convidada ? Leiam o livro de Nilma Lacerda e venham tomar um chá comigo e com ela. Estamos à espera!


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Não me depilei para isso

Não me depilei para isso

A nova exposição individual de Carolina Vigna, Não me depilei para isso, consiste em 21 aquarelas de grande porte e retratam homens de meia-idade, com dizeres escritos que foram recebidos pela artista como ofensivos. As bocas dos homens são costuradas com agulha e linha de maneira sutil, porém visível. O viés da série é feminista e trata não apenas de empoderamento feminino frente a violências sofridas mas também de seu lugar de fala.

« Vivemos um período em que o masculino perdeu seus referenciais. Não é mais o líder da matilha. Não é mais o provedor. Não é mais o sexo forte, se é que algum dia foi. Todas as construções identitárias masculinas –misóginas ou não, não importa – estão em cheque », afirma a artista.



Segundo Pedro Taam, « é a partir das linha de fuga que nos conectamos à obra de Carolina Vigna. Se abandonarmos qualquer pretensão confessional de procurar na obra significados que lá não estão e que, se estivessem, não saberíamos descobrir, podemos experimentar a intensidade arrasadora das forças ali capturadas e, mediatamente por uma experiência de alteridade que não é a nossa, mas a da artista, tornamos sua obra parte de nosso “dado biográfico” ou “dado vivido”, isto é, experimentamos aquilo que, na verdade, não experimentamos. Não vejo em sua arte senão um propósito: o de viver o não viver. Não me depilei para isso não dá voz a ninguém, não conta nenhuma novidade, não expõe nada que já não esteja escancarado. Ao contrário. Satura o visível para que devenha invisível, para que embarque em uma linha de fuga numa viagem sem volta, e por fim se dissolva em mancha. E aí, quem sabe, nossas retinas tão cansadas, tão saturadas por toda essa persistência, possam ver alguma coisa ».



A exposição acontece no Museu da Imagem e do Som – MIS – de Campinas, na Rua Regente Feijó, 859 – Centro – Campinas (SP), dos dias 21 de maio a 18 de junho de 2017. A vernissage será no sábado, dia 20 de maio, às 17h. A entrada é franca.

Xxx



Carolina Vigna é bacharel em Artes Visuais, possui licenciatura em Artes, pós-graduação em História da Arte: teoria e crítica e, é mestre e doutoranda em Educação, Arte e História da Cultura. Mais detalhes em http://carolina.vigna.com.br


Créditos das fotografias : Nelson Penteado

segunda-feira, 15 de maio de 2017

O farfalhar do outono

O farfalhar do outono

Regina Azevedo

só por um segundo
sob teu peito
o farfalhar do outono
e o que você fazia
em festejo ao fogo
a ponta dos dedos
ao relento
traquejo singular da labareda
misto de calmaria e lampejo
numa dança descabelada
a língua pronta para o surgimento
da manhã
o espírito de cavalo colorido
no ato de trocar os óculos com você
e te olhar de baixo
o minério que dorme na pele
o desafio que doma o segundo
a ginga que derrete as ondas
cheiro tônico diante do espelho
o rugido e o anúncio
do tropeço no ritual:
um orgasmo estupendo
anestesia contra bombas
de efeito moral



Beijar você

Beijar você
na queda livre da montanha
russa – feito embrião
aprendendo a dar cambalhota.
Bolinhas cítricas explodindo
na língua. Um trote
desafiando a gravidade,
o batom vermelho desejando
pular da minha boca pra sua.
Nosso toque parece,
a olho nu,
Uma boiada pisoteando
uma teia de flores
Um filhote de orca separado
da família.
Mais de perto, a mão que passeia
é a mesma que dança
Nossos ombros unidos
fazem brotar orquídeas ou margaridas.
O que há de mais bonito é
A espessura do seu batimento cardíaco
A cor que meu cabelo adquire
de acordo com o raio da sua visão.
Sua pupila dilatada
muito perto da minha pupila dilata.
Seu sorriso diante da minha clavícula,
da ideia de estação,
do pensamento de que tudo,
inclusive o que se esconde na linha do horizonte,
é pura beleza.
Tudo, absolutamente tudo,
Mas no ponto mais alto do pódio
beijar você na queda livre
da montanha russa.

--



Você dormindo
Eu pensando em te contar
sobre a feira perto de casa
onde compramos coco a 1 real
e morangos molhados
vermelhos maravilhosos
Ou que agora consigo
encostar os pés na cabeça
Uma florzinha lilás
se estraçalhando em nado livre
no riacho
E um inegável agito
entre o estômago
a vagina e as covinhas das costas
Um desastre natural
a descoberta de uma nova bomba atômica
o barulho da água
encontrando as pedras
A vontade líquida de mergulhar
com um maiô de poá e pés de pato
no penhasco que é seu pescoço
Um sussurro no escuro
Sobreviventes da guerra que podem chorar
e dar um soco seco no peito
de seus amantes
O menino dando adeus
ao seu cata-vento de papel crepom
debaixo da chuva
E mais um bebê bonito
lambendo o cardápio da pizzaria
Você abrindo os olhos
O céu roxo e laranja lá fora
As nuvens dançando
na parede gelada
Alguns origamis fazendo piruetas
feito poeira
na ponta do meu nariz
E lentamente vou emudecendo
enquanto o sol diz bom dia

XXX




Regina Azevedo é uma poeta brasileira nascida em Natal - RN em 2000. Autora dos livros Das vezes que morri em você, Por isso eu amo em azul intenso e Pirueta, além de alguns fanzines. Mantém o site www.reginazvdo.tumblr.com




sábado, 13 de maio de 2017

Helder Macedo : da leitura dos contemporâneos





Helder Macedo : da leitura dos contemporâneos

Maria João Cantinho

O poeta, romancista e ensaísta Helder Macedo é um dos autores mais incontornáveis da cultura portuguesa. Apesar de razões políticas o terem levado ao exílio e de viver em Londres desde 1960, a sua ligação à literatura portuguesa manteve-se sempre, sobre a qual sempre leccionou e trabalhou, enquanto scholar, tendo predominantemente leccionado no King’s College. Após as obras de referência que publicou, sobre Cesário Verde (Macedo, Nós, Uma Leitura de Cesário Verde, 1975 e O Romântico e o Feroz, 1988), a lírica trovadoresca (Helder Macedo S. R., 1976), Camões (Macedo, Camões e a viagem iniciática, 1980), Bernardim Ribeiro (Macedo, Do Significado Oculto de "Menina e Moça", 1977) e Sá de Miranda, regressa agora com o livro Camões e outros Contemporâneos. 
A propósito do conceito de contemporâneo diz Giorgio Agamben, no seu ensaio “O que é o Contemporâneo”, que «Os historiadores da literatura e da arte sabem que entre o arcaico e o moderno há um compromisso secreto» (Agamben, 2009, p. 70). Esse elo deve-se, não tanto ao fascínio particular que «as formas mais arcaicas parecem exercitar sobre o presente», mas sobretudo porque «a chave do moderno está escondida no imemorial e no pré-histórico» (idem). Seja como for, contemporâneo é aquele que «fracturou as vértebras do seu tempo» e transformou a fractura numa forma de abertura que liga os tempos e estabelece entre eles a sua ligação. Numa feliz convergência com o pressuposto de Agamben, Helder Macedo, diz na “Nota introdutória” da sua obra, que «Contemporâneos são todos aqueles com quem vivemos» (Macedo, Camões e outros contemporâneos, 2017, p. 11), independentemente de se situarem no passado ou no presente, estabelecendo nessa matriz trans-histórica o ponto de partida do seu conjunto de ensaios. Fala ainda, na mesma nota das «muitas vidas dispersas», aludindo a vários tempos vividos, no passado, cruzando a sua biografia – e as relações com os vários escritores portugueses que conheceu – com a sua obra e consequente leitura e interpretação dos seus autores eleitos. Leituras que, como também aqui frisamos, nem sempre foram consensuais e conformes à tradição académica em Portugal. Em parte porque, além da literatura, a sua formação é também histórica, o que lhe permitiu estabelecer essa relação transdisciplinar que permite contextualizar textos de forma menos redutora, sobretudo nas análises da poesia medieval e renascentista e em Camões.
Helder Macedo subdividiu assim a sua obra em quatro capítulos, a saber: “Camões e a Modernidade da Tradição”, “História, Memória e Ficção”, “Testemunhos” e “Textos e Contextos”. Se os textos que os compõem são muito diversificados, podemos reconhecer nessa diversidade os seus núcleos temáticos, que se interconectam deliberadamente entre eles, como nos diz o autor, logo no início do livro, e é precisamente nessa matriz do contemporâneo que podemos reconhecer a afinidade que lhes é intrínseca e que percorre os temas e os «seus» autores.


O primeiro capítulo da obra é consagrada aos autores da sua eleição como aqueles que trabalhou com Stephen Reckert, no Cancioneiro medieval, Bernardim Ribeiro, autor de Menina e Moça, Sá de Miranda e Camões. Logo no primeiro texto deste capítulo, o autor adverte o leitor para as armadilhas de uma leitura descontextualizada da literatura medieval portuguesa e do próprio Renascimento, ignorando os elos ocultos e a matriz simbólica que suporta as canções de amigo, levando a uma leitura ingénua por parte daquele que ignora o alcance da metalinguagem que é aí utilizada, ignorando ou fazendo vista grossa à incorporação de uma sexualidade que é incorporada simbolicamente na linguagem aí utilizada. O caso paradigmático de Bernardim Ribeiro salta-nos ainda mais à vista, pela «persistente incompreensão dessa obra-prima de um Renascimento ideologicamente medieval que é a Menina e Moça. Terem alguns detectado «loucura» em Bernardim Ribeiro é na verdade um diagnóstico do método de leitura que necessitou de postula-la.» (p. 15).
Descortinando sentidos outros que os imediatos, procurando nos contextos e nas referências culturais e históricas da época, Helder Macedo oferece-nos uma interpretação da poesia lírica medieval que se afasta do habitual sentido que lhe era atribuído pela tradição literária e descobre inusitadas, surpreendentes relações, de cariz mais erótico. Bem como ressalta, nessa tradição lírica, a autonomia e o poder da sexualidade feminina que as interpretações mais puritanas não deixavam adivinhar e que abalam os estereótipos que condicionam a sua leitura e a sua compreensão. Como refere, ao abordar as cantigas de escárnio de maldizer de D. João Garcia de Gillade, «O elemento subjacente à agressividade masculina evidenciada em muitas cantigas de escárnio e maldizer é o desconforto do homem em relação à incontrolada sexualidade da mulher, tradicionalmente associada ao orgástico frenesi destrutivo das bacantes.» (Macedo, Camões e outros contemporâneos, 2017, p. 35). Se as interpretações da poesia medieval galego-portuguesa reconheciam nas sua canções uma idiossincrática poética, no sentido em que esta tendia a fugir às convenções da poesia pela sua irreverência, é, no entanto, necessário reabilitar esses autores que foram empurrados para as margens da poesia. Com Stephen Reckert, admirável estudioso da lírica medieval portuguesa, concorda Helder Macedo, descobrindo nessas canções que “a realidade do amor, mesmo nas formas mais cruas, pode ser altamente poética (e matéria de alta poesia) mas que nunca é apenas «literária»” (Idem, p. 39).
Uma das relações mais interessantes nesta obra é aquela que é estabelecida entre a poesia de Sá de Miranda e a lírica camoniana, sabendo que Camões se inspirou na sua obra, bem como as influências mútuas de Bernardim Ribeiro (provavelmente de origem hebraica) e Sá de Miranda: «Mas quanto de Bernardim Ribeiro não tem também Sá de Miranda, de Sá de Miranda não tem Bernardim, e de ambos não têm outros poetas que escreveram sob a sua aura.» (Macedo, Camões e outros contemporâneos, 2017, p. 51). O modo como Helder Macedo aborda a lírica camoniana reflecte bem a sua intimidade com a complexidade da sua obra, identificando as afinidades e os elos existentes com os autores que lhe eram contemporâneos e que são reconhecíveis pelo rasto que deixaram na sua lírica. Se muitas das leituras que incidem sobre a lírica de Camões insistem sobre a sua ligação a Petrarca e sobre as fontes clássicas e italianas, no entanto, Helder Macedo adverte o leitor para o não esquecimento da importância da tradição lírica portuguesa e medieval, no universo da poesia camoniana. Renuncia (e denuncia-a) a uma visão estereotipada daquele que foi um poeta maior da nossa língua e do Renascimento, mostrando-o como alguém que «viveu num mundo em transição» (Idem, p. 96). E, apesar das influências eruditas do seu tempo, Helder Macedo reconhece em Camões um «poeta moderno», ao colocar a experiência como «base do conhecimento» (Idem). Integrado numa linhagem da tradição ocidental que inclui poetas como Virgílio, Ovídio, Dante e Petrarca, herdeiro de um neo-platonismo vigente nessa época e de um pensamento e linguagem clássicos, é sobretudo no modo como Camões opera subtis deslocamentos semânticos na linguagem da sua época que se revela a sua originalidade, apresentando metaforicamente uma nova visão do mundo que ainda não conhece uma linguagem que a nomeie. Daí a sua contemporaneidade, no sentido em que foi um poeta da inquietação e da dúvida, consciente dos limites do conhecimento e de que o seu tempo, o de abrir novos caminhos, estava mais próximo da ruptura do que da continuidade, da imanência do que da transcendência, nesse «tactear» que fez a grandeza dos homens do renascimento. Um mundo, também, que se revia mais na fragmentação da realidade e nos escombros do que havia sido uma ideia da totalidade preconizada pelo platonismo. Era, portanto, o poeta que reconhecia a contradição como matriz da própria realidade. E, se à tradição da crítica literária embaraça um Camões boémio, Helder Macedo procura dar a ver que esse Camões é o mesmo homem que escreveu a mais sublime epopeia. Esse é, precisamente, o lado mais fascinante, o que lhe confere, na óptica de Helder Macedo, a «espantosa modernidade da sua obra» (Idem, p.103) que advém do facto de «Camões só poder ser entendido como um desconfortável todo» (Idem).



Alguns dos textos que integram o livro são conferências que, como podemos deduzir, retomam os autores estudados por Helder Macedo, mas há também outros que abordam e comentam a obra de vários autores portugueses, como Eça de Queiroz, Pessoa, Cesário Verde, Manuel Teixeira Gomes, Herberto Helder, Jorge de Sena, Mário Cesariny, José Saramago, José Cardoso Pires, Sophia de Mello Breyner e muitos outros. Um dos mais interessantes capítulos deste livro é, sem dúvida, o terceiro, intitulado “Testemunhos”. Helder Macedo evoca aqui o grupo do Café Gelo, do qual fez parte (e fala/escreve como se nunca tivesse deixado de fazer). As descrições vívidas, e escritas com muito humor; sobre os escritores e artistas que integravam o circuito do Café Gelo, numa época em que os cafés eram pólos culturais que aglutinavam a cultura em Portugal e que diferenciavam, entre si, as diversas tendências artísticas e literárias; constituem um notável fresco de uma época em que a arte, a poesia e a literatura assinalavam esse gesto político e de dissidência, face a um panorama anquilosado pela censura e pela perseguição política, e em que a poesia (sobretudo) se reinventava engenhosamente pelas suas metáforas para poder dizer o que não podia ser dito. Creio que se deve a Helder Macedo, pelo seu testemunho extraordinário, a possibilidade de reconstituir o que foi essa atmosfera, na sua época, e a importância dos movimentos que por ali passaram e que se exilaram, para fugir à guerra e à miséria do país. Helder Macedo fala de Manuel de Castro, um poeta desaparecido precocemente (com 36 anos) e que nos deixou uma obra notável, editada pela Língua Morta, Bonsoir, Madame, a qual reúne os livros Paralelo W, dedicado ao poeta e amigo José Manuel Simões, e Estrela Rutilante. Helder Macedo também refere no seu testemunho outros poetas e artistas que pouco conhecemos hoje, como José Sebag, José Manuel Simões (do qual a Abysmo editou recentemente Sobras Completas), José Carlos Gonzalez, João Rodrigues, mas também autores que se tornaram míticos, como Herberto Helder ou Cesariny. Rimos diante da ida a Londres, em simultâneo, de Jorge de Sena e de Mário Cesariny, que não morriam de amores um pelo outro, comovemo-nos diante da «pureza» de José Manuel Simões, que morreu no exílio, em condições miseráveis. Diz dele o autor: «foi o mais puro de nós». (Macedo, Camões e outros contemporâneos, 2017, p. 243). Jovens (nem todos), boémios, talentosos, mas também (alguns deles) loucos e suicidas, os artistas e os poetas do Café Gelo exigem a nossa atenção, muito para além do vago culto que se lhes presta hoje e lhes confere uma aura (e uma visão caricatural) de maditos um tanto esvaziada da sua carga política. Mais uma vez retomo a expressão de Helder Macedo, quando refere a necessidade de analisar os contextos que originaram essas poéticas. Não é possível compreender-lhes a grandeza a não ser desse modo.
No último ensaio deste livro, a sua virtude é também o seu risco, a atentar logo no título: “Oito séculos de Literatura”. O mote é lançado para um texto que se propõe, de modo tão ambicioso quanto a sua curta extensão (ainda que seja o texto maior). Porém, ainda assim, Helder Macedo cumpre a sua promessa. Só é possível exercer a síntese como arte suprema quando se domina o tema, os autores, o cruzamento entre eles. Uma visão histórica da literatura sem cair num historicismo redutor é provavelmente a maior qualidade deste texto, onde refere a predominância das mulheres no campo da ficção e há espaço, ainda, para falar de autores numa panorâmica actual, como os ficcionistas António Lobo Antunes, Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta, Almeida Faria, Gonçalo M. Tavares e poetas como Nuno Judice, Paulo José Miranda, António Cabrita.


Se contemporâneo diz respeito àquele que, aninhado no passado, se revela no presente como intemporal ou, melhor dizendo, como atemporal, pouco importa que ele tenha vivido na Antiguidade Clássica como Homero ou Platão, no Império Romano como Ovídio ou Virgílio, na Idade Média e no Renascimento, como Dante, Petrarca ou Camões, no século XVII como Montaigne ou ainda mais próximos do nosso tempo. O ar que respiramos é o mesmo que eles respiraram, a linguagem que usamos é a mesma, ainda que as formas de dizer sejam diferentes. São profundamente modernos no sentido em que as suas vozes nos habitam, vivem connosco, ainda que mortos, perseguem-nos e nunca nos deixam esquecê-los, pela grandeza que neles mora. Sempre tão próximos, ainda que longe. E ainda assim tão longe, mesmo que perto, na sua «obscura presença».



xxx


Maria João Cantinho nasceu em Lisboa, 1963. Passou a infância em Lisboa e regressou em 1975 a Portugal, onde estudou Filosofia, na Universidade Nova de Lisboa.  Doutorada pela Universidade Nova de Lisboa em Filosofia Contemporânea, sob a orientação de Maria Filomena Molder e de Gérard Bensussan (Université Marc Bloch, Strasbourg), é actualmente professora do Secundário, foi professora auxiliar no IADE (entre 2011-2016), nas áreas de Estética e de História da Fotografia. É, ainda membro integrado do Centro de Filosofia da Universidade Clássica de Lisboa e do Centre d’Études Juives (Sorbonne), tendo organizado vários congressos internacionais e co-editado livros sobre Levinas, Paul Celan, María Zambrano. Publicou O Anjo Melancólico, ensaio (2002), várias obras de poesia, ficção e literatura infantil. É membro da direcção do PEN Clube Português, Membro da APE (Associação Portuguesa de Escritores) e da APCL (Associação Portuguesa de Críticos Literários). Escreve regularmente para a Colóquio-Letras da Fundação Calouste Gulbenkian, colaborou com a LER, entre outras publicações de carácter literário e académico. Maria João Coutinho é ditora da Revista Caliban. Consultem o link : https://revistacaliban.net/

Bibliografia

Agamben, G. (2009). O que é o contemporâneo? Em G. Agamben, O que é o Contemporâneo e outros Ensaios. Chapecó: Argos.
Helder Macedo, F. G. (Campo das Letras). Viagens do Olhar: Retrospecção, Visão e Profecia no Renascimento Português. Porto: 1998.
Helder Macedo, S. R. (1976). Do Cancioneiro de Amigo. Lisboa: Assírio & Alvim.
Macedo, H. (1975). Nós, Uma Leitura de Cesário Verde. Lisboa: Plátano.
Macedo, H. (1977). Do Significado Oculto de "Menina e Moça". Lisboa: Moraes.
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