sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Barbas pouco confiáveis


Barbas pouco confiáveis

Elvira Vigna

Tive um problema na minha leitura de Barba ensopada de sangue de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2012). Fiquei com vontade de pular páginas, ler outras na diagonal. Não no começo, mas já passando do meio, quase no fim. Ou seja, não era uma incompatibilidade minha em relação ao texto. Foi me dando. O que se segue é minha tentativa de explicar a razão disso.
A primeira frase do livro é brilhante:
"Vê um nariz batatudo, reluzente e esburacado como uma casca de bergamota."
(Isto é, primeira frase tirando a descrição, em itálico e entre páginas em branco, do suposto fato real que gerou a ficção, mas sobre isso volto mais tarde.)
Digo que é brilhante porque determina de imediato o que devo esperar do livro: um discurso regional ("bergamota" é regionalismo de Santa Catarina e Rio Grande do Sul), realista, com narrador-câmera (a primeira palavra é "vê") na terceira pessoa. Devo esperar, principalmente, uma determinada distância emocional entre narrador e narrado: pouca. O narrador está bem próximo do narrado. A ponto de ver buracos em uma pele de nariz.
Acabo de descrever o narrador em situação clássica de catarse. Alguém comum (a escolha de um nariz como ponto de partida determina o banal) que, por conta de uma decisão ou escolha, se vê em meio a emoções violentas, catárticas, que o "salvam" - e ao leitor, de cambulhada. Uma maneira de apresentar tais emoções violentas é justamente descrever detalhes, mesmo os que nenhuma importância têm, mas que se imprimem na memória de quem passa por elas.
E foi esse o problema.
O texto é frio.
Nada contra. Poderia ser um excelente texto frio. O problema é que há uma falsidade básica nas técnicas narrativas realistas e detalhistas a prometer uma catarse que não está lá. E não está lá porque a proximidade emocional prometida inexiste. O narrador é emocionalmente distante do narrado e, portanto, do leitor, em que pesem as técnicas de proximidade usadas. São várias: 1) o detalhamento minucioso, típico do emocionalmente impactante, mas usado de forma indiscriminada como, por exemplo, na descrição de uma tarde no circo, nem um pouco impactante; 2) o narrador-câmera que só vê , mas que não é um narrador-câmera já que entra na cabeça de todo mundo; 3) um linguajar "oral", com palavras grafadas como se fala e sempre no presente do indicativo, mas em frases que seguem um padrão regular, não importando quem e quando fala.
Além disso, outras coisas que, não sendo exatamente técnicas narrativas, sugerem um estar mais à vontade no longe do que no perto: 4) a escolha de um balneário turístico, local por definição fora-do-mundo-real, como base do presente narrativo; 5) as dualidades claras, dicotômicas, só possíveis quando vistas de forma esquemática, isto é, de longe; 6) a profissão do herói: um atleta, isto é, alguém que busca ativamente, através de limites físicos, seus impactos emocionais, em vez de sofrê-los, com tudo o que isso significa em termos de tentativa de controle - sendo que impactos emocionais minguam na exata razão inversa de tentativas de controle.

Mergulha, passeia um pouco entre as pedras marcando o tempo no relógio e só emerge quando começa a sentir atrás dos olhos aquela pressão desesperadora da falta de oxigênio. Um minuto e cinco segundos.( 203)

E, 7), há ainda a questão da decisão ou escolha que precipitaria a jornada catártica. Não há decisão. O distanciamento emocional do herói é tal que ele não participa daquilo que é dado como sendo a razão inicial de seu distanciamento emocional: a mulher da vida dele para sempre perdida ("Viviane") o abandonou para ficar com o irmão dele. Ela vai, ele não faz nada:

Eu não podia ir contigo naquele momento porque tava treinando pro mundial de Iron man no Havaí. Que era o sonho da minha vida. (414)

A decisão ou escolha, o fator de mudança, o gatilho da ação, é de Viviane, não dele. Ele continua a fazer o que já estava fazendo antes de o livro começar e que continuará fazendo depois que o livro acaba, isto é, sendo atleta.
De todos os itens que listei, incluindo esse da ausência da decisão deflagradora da ação, só vou me estender aqui em dois deles: o 2) do narrador cuja proximidade emocional é prometida mas não existe; e o 5) das dualidades dicotômicas, com um certo destaque para um aspecto que me é caro, o da dualidade dicotômica de gênero.

O falso falso narrador onipotente, onisciente e ubíquo

Primeiro, uma dificuldade de definição. Existe o falso narrador onipotente, onisciente e ubíquo. Aquele que, na terceira pessoa, acompanha de perto um determinado personagem, mas só ele. Vê tudo que ele vê e até entra na cabeça dele, sabe de seus pensamentos, mas só os dele. Ou seja, é um "eu" disfarçado de "ele". Achei que era o caso.
Mas não. Aqui é um falso falso narrador onipotente, onisciente e ubíquo. Ou seja, ele é de fato onipotente, onisciente e ubíquo. Só disfarça que não é. Segue um determinado personagem, o herói, mas na verdade entra na cabeça de todo mundo, personagens secundários como Dália (sua companhia na ida ao circo) ou um surfista que nunca mais vai aparecer no livro:

Dália repara que os assistentes de palco que montam e desmontam a cena em quase todos os números são ninguém menos que Los Bacaras. Ela suspeita que são todos da mesma família. (146)

É um dia de inverno que parece de verão. Sentado em cima da prancha, ele mexe os dedos dos pés dentro da água gelada e imagina que não há mundo do outro lado dos morros.(321)

Ao não se assumir como onipotente, onisciente e ubíquo, o narrador também não se assume como pensador. Discussões filosóficas, assim, são colocadas na boca de personagens que não as sustentam, ficando, eles também, falsos. Um bebum de beira de praia providencialmente teve no passado uma namorada muito culta que o introduziu ao pensamento de Nietzsche. Uma recepcionista de lojinha para turista disserta sobre a diferença entre mito e ídolo graças a um curso na universidade local. Ela também sabe tudo sobre a época da colonização da região, porque leu muitos livros e pode, inclusive, emprestá-los ao herói.

Isso tá nos livros de história de Garopaba, posso te emprestar um.( 260).

E ela também sabe o que é prosopagnosia.

Jasmim é a primeira pessoa que ele conhece que já sabia o que era prosopagnosia. É o tipo de coisa que ela estudou na faculdade e que fica lendo em sites de internet com um interesse insaciável. ( 268)

Esse narrador - distante emocionalmente do narrado, embora finja estar perto; que usa os personagens para expor ideias que não podem ser dos personagens - terá mais uma dubiedade: um curioso momento em primeira pessoa, o único do livro, sobre o qual falarei junto com a questão de gêneros, no item das dualidades dicotômicas.

As dualidades dicotômicas

Permeiam todo o livro.
A primeira é a do destino versus livre-arbítrio:
É uma discussão da época do existencialismo e que não teria mais muita relevância em nosso capitalismo tardio. Mas o ponto não é esse. É que é uma falsa dualidade mesmo dentro do escopo do livro. Quero dizer, é falsa no livro. Porque embora se apresente como uma discussão, ou seja, dois pontos de vista antagônicos que precisam se encontrar como tese, antítese e síntese, o que vem primeiro é a síntese. É o destino quem comanda o mundo, fico sabendo desde o início. Só que, para evitar dilemas morais, o herói - que é moralista - conclui que, mesmo apenas obedecendo ao que determina o destino, é preciso agir como se houvesse responsabilidade pessoal.

Ninguém escolhe nada e mesmo assim a responsabilidade é nossa. É assim. Não sei explicar por quê. (419)

Digo que sei desde o começo que é o destino quem ganha essa falsa dualidade porque há referências a "purezas de origem", sonhos premonitórios, lendas que se comprovam, personagens misteriosos a anunciar o que pode vir.

Levanta um pouco mais tarde sem saber ao certo se cochilou. Algo importante mudou na atmosfera mas é difícil dizer o quê. (...) O fim do mundo se aproximando em silêncio. (132/133)

De repente não há nada para fazer nem pensar e nesse hiato ele tem um vislumbre de como e onde irá morrer. A visão não surge em detalhes.(179)

Sua figura tem uma pureza ancestral. (191)

Não lembra de ter chegado à praia mas consegue evocar fragmentos vívidos de toda a noite anterior. Parece um pouco um sonho (...). (375)

A mulher começa a relatar outro sonho que teve com ele, mas ele a interrompe e diz que já sabe. (399)

A segunda dualidade dicotômica é a do homem versus natureza:
Haveria outros exemplos, a começar por um elogio à vida não urbana ou "em contato com a natureza" da casinha virada para o mar e não para a rua. Mas vou me ater à barba que dá título ao livro e que passa de um homem a outro homem (uma fantasia de procriação sem participação feminina, em que pese a anamorfose possível a transformar barba em pelos púbicos e sangue guerreiro em menstruação).
Essa segunda dualidade, homem versus natureza, se liga à primeira, a do destino. A barba passa de homem para homem para que um destino se cumpra, o destino da integração com a natureza, tentada pela primeira barba, mas só conseguida pela segunda. A barba intermediária, a do pai, nega sua presença. Ela é raspada ("Barba feita") até o suicídio de seu portador, que colabora no entanto com o dilema ao ofertar uma cachorra, a Beta (é uma fêmea, portanto do segundo sexo), para o embate final.
O atleta, em sua fisicalidade, é um ser superior ao avô e consegue passar de um mundo, o dos homens, ao outro, o da natureza - o que o avô não conseguiu, não totalmente. Talvez não seja graças à fisicalidade superior do herói. Afinal, o avô também tinha seus dotes físicos: sobreviveu a facadas múltiplas, nadava muito bem e ficava um tempo grande debaixo d'água. Talvez o sucesso de um e fracasso de outro se dê por causa da presença feminina, tolerada pelo avô (desde que em estado de submissão) e descartada pelo herói. De todo modo, ele consegue: o elo com a cachorra não se abate apesar de quilômetros e reveses. E uma baleia fica "a vinte, trinta metros de distância" do herói, sendo - tanto quanto a cachorra - uma cúmplice, uma irmã de destino:

Ela transmite calma e cumplicidade. ( 320)

É como uma fábula. Tu vê que a vida do cara e a vida da garoupa tavam ligadas de alguma forma, como a tua vida e a dessa cachorra. (124/125)

O livro tem um final feliz. O herói consegue ser um com a natureza, e tal calma e cumplicidade excluem a violência - e também, talvez, mudanças perturbadoras e a própria passagem do tempo.

Dentro das dualidades dicotômicas, a dos gêneros
As mulheres do livro. Estão no âmbito de "família" e não de "companheirismo", entendido sempre como algo possível apenas entre homens, ainda que seja entre um adulto (o herói) e um menino (o filho de uma ficante ocasional).
Como "família", mulheres se opõem ao "mundo" e o herói precisa escolher entre essas duas coisas, não havendo possibilidade de ter as duas:

Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. (399)

Não há gays.

Do tabu do homossexualismo e o monte de problemas que isso traz. Pessoas sofrendo na vida privada (263)

É o único momento do livro em que a homossexualidade é referida. Eu poderia analisar um por um os sintagmas escolhidos. Mas vou ficar só com "tabu", deixando de lado o reducionismo da "vida privada". Deixo de lado também a escolha de "homossexualismo" e seu sufixo denotador de anormalidade.
Tabu então. Tabu está no campo semântico do religioso, do sagrado. O narrador considera que a atitude antigay da comunidade de pescadores não é um preconceito, uma violência social e uma ignorância, mas uma consequência do sagrado. Posso colar esse comentário àquele da responsabilidade pessoal que as pessoas devem ter, mesmo quando sabem que apenas seguem seu destino.
Com gays e mulheres mantidos à distância, o herói pode se dedicar ao companheirismo masculino, inclusive no momento transcrito a seguir, o único em que o narrador assume uma primeira pessoa, ausente em todo o resto do livro:

Trocaram um abraço forte. Pedrão tinha se aproximado e dito Oi, é o Pedrão. Eram dois homens que se respeitavam. Tinham passado centenas de horas juntos, correndo, pedalando e nadando longas distâncias, se incentivando, se distraindo, puxando o ritmo do outro, tentando acompanhar o ritmo do outro, compartilhando o estado mental semimeditativo do exercício prolongado. Pedrão tem a mesma idade que ele, trinta e quatro anos, mas ele sabe que os dois parecem um pouco mais velhos que isso. Esforço demais, sol demais, radicais livres demais no sangue se somando aos percalços físicos e emocionais que afligem todo mundo e que carregamos no corpo (...). (206)

Voltando às mulheres.
A mãe. Não é confiável. Tem um namorado, ou seja, "trai" o pai na equação básica edipiana. Também trai o herói porque tem preferência pelo seu irmão. Trai o passado (que é algo que o narrador tem em alta conta embora não se saiba a razão para isso) ao fazer plástica. E está definitivamente do lado "errado" na dualidade dicotômica homens versus natureza, pois maltrata a cadela Beta. Além disso, a mãe usa o pejorativo "negrinha" para se referir à namorada do herói, a Jasmim, ofendendo, assim, sua masculinidade.
Viviane. A mulher da vida dele para sempre perdida. Acho mesmo que é a mulher da vida dele porque para sempre perdida, já que o herói, obedecendo a um romantismo muito em voga na literatura moderna (e não na contemporânea), só se entende sozinho.

Imaginou variações consecutivas dessa história por anos a fio. Em todas ele terminava sozinho. (403)

Jasmim. Faz compras, faz sopinha. E faz faxina. E, além de tudo, não espera ligação emocional. É a encarnação de uma fantasia masculina de mulher, a que doa de comida a afeto, sem necessidades emocionais ou materiais. Diz ela:

Sobre a gente ter se conhecido e qualquer coisa que acontecer daqui pra frente. Vamos tentar simplesmente não falar a respeito. Não perguntar se tá acontecendo mesmo, se a gente tem motivos, se vai ser assim ou assado. Querer saber o que um tá sentindo, o que o outro tá sentindo. Sei que devo parecer louca mas falar sobre as coisas avacalha tudo para mim. Falar estraga. (pg. 268)

***

Uma nota sobre o início do livro, com a explicitação do "fato real", gerador da ficcionalização.
Paulo Scott fez a mesma coisa em seu último romance, (O habitante irreal, Alfaguarra, 2011), também resenhado por mim. Gosto do recurso. Mas acho que melhor seria se em vez de separar "fato" e "ficção" os autores expusessem seu processo de ficcionalização enquanto ele se dá. Isso permitiria ao leitor uma maior entrada, um diálogo que, deste modo, fica impedido. Ao separar as duas coisas os autores obliteram suas falhas e hesitações, não deixam brechas para que autoria e leitura se deem de igual para igual.
Outra coisa de que gostei: a rememoração de uma trepada distante no tempo, nas pgs.81/82. É belíssimo.
Então é isso, achei o livro bem escrito paca, mas fingindo ser o que não é. Ou melhor, finge porque é bem escrito paca.
Há uma frase do livro que eu gostaria de ter escrito:

Dizem que a vida vista de perto é mais fascinante. ( 264)

Eu acho.

Elvira Vigna
Novembro de 2012

Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora  :

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos. Confira no link:

6 comentários:

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  2. Muito perceptivo, Elvira. Como sempre. Parabéns e obrigado!

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  3. ótima análise, muito bem estruturada. concordo e discordo em diversos pontos acerca desses instrumentos utilizados pelo autor, literatura é isso...ou não?

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  4. Olá Elvira. Achei muito boa a análise do livro. Ainda estou na página 112 mas, desde as primeiras descrições, percebi uma certa frieza na narrativa. Muitos detalhes e poucas perspectivas de uso para tantas coisas esmiuçadas. Realmente, é um livro bem escrito. Espero que o final realmente condiga com a bela composição. Por mais que a descrição seja exaustiva, digamos, e, em alguns momentos me canse, gosto de perceber a facilidade (ou dificuldade) que o escritor tem em escrever tantos detalhes. Pretendo escrever um livro (ou dois, ou três ou mais) e o que mais me complica é esse 'poder em descrever'. Treino, de forma tímida, em meu blog, mas ainda estou aquém de me assegurar num conto ou romance.
    Gostei também, muito, da cena descrita nas páginas 81/82. Marquei inúmeras exclamações ao longo do texto para reler em outra hora. É de uma carga poética arrebatadora.
    No mais, gostei do seu blog e pretendo visitá-lo mais vezes.
    Abraços!

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  5. A resenha inteira poderia ter sido resumida em "é um livro de um homem retratando a visão de mundo de homens para outros homens e eu, enquanto mulher, fiquei ressentida com isso". Breaking news: arte feita por homens também é arte, seja cinema, literatura ou teatro. Não é um crime retratar o mundo de um ponto de vista masculino. Ou vamos dizer que Simone de Beauvoir é ruim porque é "muito feminina"?

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