domingo, 25 de junho de 2017

A descoberta da pitanga e da Chácara do Castelo


A descoberta da pitanga e da

Chácara do Castelo

Paula Fábrio

Devia ter oito anos quando empreendi minha primeira expedição. Desceríamos o escadão da rua de trás da minha casa. Eu e cinco corajosos seguidores. Todos oscilando entre o fascínio da liberdade e o temor do desconhecido. O percurso compreendia descer o escadão, que eu havia provado por a + b desembocar numa rua cuja saída dava para a avenida de onde saía o quadrado perfeito que formava nosso pequeno bairro e mundo; em seguida, poderíamos correr, caso o medo nos tomasse de assalto (mas isso eu não falei) e, logo depois, a primeira direita nos levaria de volta ao terreno seguro de nossas casas. Não foi difícil convencê-los.

Não deu tempo de concluir a explicação, dois deles já se agitavam escadaria abaixo.

Descemos feito loucos os degraus de pedra e chegamos já sem fôlego à rua. Paramos. Coração na boca. Dia claro. Sob a árvore. Foi quando avistamos os pequenos frutos de cor laranja sobre nossas cabeças. Ergui o braço e apanhei um deles. Os outros seguiram meu exemplo. Seria venenoso? Num ato de bravura, provamos. Todos ao mesmo tempo. Começava doce. Um azedo no final. A menorzinha e mais sabida nos informou que eram pitangas e não morreríamos por isso. 

Enfim, a primeira etapa da aventura se provou vantajosa. Mas não era só isso, dali a instantes eu desceria outra escada, fora da rota estabelecida, sozinha, e esse caminho me levaria a outro mundo, sem volta.

Com os bolsos lotados de pitanga, prosseguimos. Tudo era novo, cada veio de calçada, cada pneu de bicicleta no quintal, uma janela mais velha, um poste tombado. Então surgiu uma curva. A curva nos mostrou um casarão branco no meio do mato, do outro lado da rua, mas a uma distância incrível. Como acessá-lo? Era um parque? Um terreno público? No meio do vão, com os rostos colados no alambrado, vimos lá embaixo, bem embaixo, um campinho de futebol, e do outro lado da curva, na direção contrária às nossas casas, o casarão.

Eu vou até lá! Mas prestem atenção: vocês precisam voltar para casa. Falei com liderança, afinal eu era a mais velha da turma. Eles concordaram. Repassamos o caminho e eu os segui com os olhos até a curva acabar.

Havia chegado a minha vez. Algo me atraía para o casarão.



Saí em disparada, contornei pela rua, ali do alto, o campinho de futebol inteiro. Logo adiante, as casas se tornaram escassas e um muro branco muito comprido seguiu meus passos até o portão de ferro com a inscrição Biblioteca Chácara do Castelo. Portão aberto. Considerei se seria correto eu entrar. Aquele prédio não era meu. Creio que foi a primeira vez que me deparei com a confusão do que seria público ou privado. Crianças tomam decisões muito rápido.

Passei o portão e me deparei com uma escada de dois lanços. O casarão lá embaixo. No patamar da escada, um jovem fumando. Tive medo, mas achei vergonhoso voltar atrás, afinal, ele não estava nem aí para mim. Quando cheguei lá embaixo, já livre do perigo - porque agora com a presença de outras pessoas -, divisei a porta de entrada, as funcionárias atrás de suas máquinas de escrever, dezenas de arquivos com fichas; jornais, revistas, gibis e livros, muitos livros sobre as mesas e também nas estantes de ferro. Ninguém se incomodou comigo e por esse simples motivo o ambiente me conquistou. Um silêncio protetor. Eu podia mexer nas prateleiras, à vontade. E aquelas mulheres sentadas à máquina de escrever pareciam confiáveis como minha professora da escola. Sentei-me em uma das mesas redondas e coletivas. Ninguém se importou. Achei isso o máximo. Olhei ao lado, havia gente lendo, e os livros poderiam seguir comigo até em casa, a única caução era uma ficha com meu nome e sobrenome. Todos aqueles livros eram meus. Todos. Eu me senti a pessoa mais importante do mundo. Fiz minha carteirinha e voltei ali dezenas de vezes, até um dia crescer e querer outros livros que moravam em bibliotecas maiores e mais distantes.  Posso dizer, voltei à Chácara do Castelo com insistência e carinho. Com desejo e volúpia. Carente, suplicante e insaciável. Mesmo que os livros fossem amassados, sujos e maltratados. Mesmo que meu pai insistisse em comprar um exemplar novinho na Siciliano do centro. Eu queria estar ali. Na biblioteca.  

Naquele dia, ao voltar para casa, contei minha aventura aos meus pais. Esvaziei os bolsos e mostrei as pitangas (ai, eu já havia me esquecido delas e do começo daquele dia) e também exibi a carteirinha. Eu tinha realizado algo útil, no mínimo. Minha mãe fritava um pastel ou coisa parecida. Sem tirar o olho da panela, respondeu: ah, isso é pitanga, não tem gosto de nada. Em seguida, ela viu a carteirinha da biblioteca, eu expliquei, mas ela não entendeu. Já na rua, mais tarde, foi a vez das outras crianças, ninguém achou graça na tal de biblioteca.

Ninguém.

Por isso, anos mais tarde, quando fui trabalhar no Anhangabaú e não conseguia segurar dois minutos de conversa com os colegas da agência de propaganda, descobri que as pitangas e as tardes na Chácara do Castelo estavam tão dentro de mim, que as poderia levar até o prédio ainda não reformado da Biblioteca Mário de Andrade e suportar, por fim, a hora inteira do almoço.



Xxx



Mestre e doutoranda em Literatura pela USP, Paula Fábrio dá aulas de escrita criativa e mantém uma coluna na Revista Pessoa. Seu romance Um dia toparei comigo (Foz) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016 e agraciado com a bolsa ProAC. Seu primeiro livro, Desnorteio (Patuá), venceu o mesmo prêmio em 2013, na categoria estreante. Paula Fábrio participou da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien.



2 comentários:

  1. Pitanga, tem gosto de quintal e de infância bem vivida e resolvida.Literalmente delicioso o texto.

    ResponderExcluir
  2. Depois do percurso desconhecido encontrar uma certa liberdade na biblioteca...lugar e palavra!Vc se encontrou,e tão cedo!Parabéns.Mas se vier a Pernambuco,pitanga aqui é fruta de saboroso suco,sorvete,até mousse e o licor que Gilberto Freyre dizia ter a melhor receita.Chega aqui não dizendo que é frutinha que não tem gosto de nada.Acerola e pitanga,mais vitamina c que tudo nesse mundo..é o que se ouve na feira.

    ResponderExcluir