terça-feira, 4 de julho de 2017

A porta errada

A porta errada
Jéferson Assumção*

Nós tínhamos chegado há pouco de outro bairro no outro lado da cidade e por isso eu não conhecia direito a escola, suas salas e corredores, naquele março de 1979. Então, sem saber, eu entrei em uma porta errada. Quando a abri, vi uma sala de uns três metros por quarto com as paredes repletas de livros de capas coloridas. Uma professora, que estava lá dentro, atrás de um balcão, sorriu e disse: “Pode entrar. Tá querendo alguma coisa?”. Eu entrei. Meus pais tinham estudado bem pouco, não havia livros na nossa casa na época, então se pode supor o impacto que aquela pequena biblioteca teve em mim. Quando eu, enfrentando a paralisia da timidez, decidi passar por aquela porta errada esse passo acabou abrindo também inúmeras outras. E segue abrindo ao longo da minha vida.

Minha relação com as bibliotecas começou quando eu tinha nove anos e morava no bairro Mathias Velho em Canoas, no Rio Grande do Sul. Um bairro de periferia que, no final dos anos 70, não oferecia muito aos seus habitantes. A grande maioria, como meus pais, tinha vindo do interior durante o êxodo rural da virada dos anos 60 para os 70. Mas não eram só as ruas vermelhas de pó e calor no verão e de barro gelado nos invernos infindáveis o que havia na Mathias Velho. Além dos inúmeros e cheios campinhos de futebol, a duas quadras da minha casa estava a Escola Estadual Victor Hugo Ludwig e, dentro dela, um aconchego, um refúgio.

Um ano antes, do outro lado da cidade, eu já havia recebido como prêmio da minha escola por minhas boas notas o livro O Cachorrinho Lau Lau – infelizmente não guardei o nome do autor. E por que eu conto isso? Eu tirava notas boas porque, ansioso, já tinha me alfabetizado antes mesmo de ir para o colégio, em casa, aprendendo o beabá com meus próprios botões e alguma ajuda da minha mãe. Daí que era fácil tirar notas boas e em função delas, no final de 1978, eu desfilava orgulhoso pelas ruas da Rio Branco, um bairro de metalúrgicos, com meu livrinho embaixo do braço. Sem saber, eu começava a dar meus passos narrando-me como leitor. Mostrava para os amigos que eu gostava de ler, e o fazia folheando e relendo inúmeras vezes aquele mesmo livro, para mim, meus irmãos e os vizinhos, até dormindo abraçado à minha biblioteca de um livro apenas.


Bom, na época era costume entre as famílias de periferia, pelo menos algumas das famílias que eu conhecia, esperar para colocar dois ou mais filhos juntos na primeira série. Com isso podia-se economizar um pouco com o material. Comprava-se um só livro didático para os dois, uma só borracha, um apontador, apenas um jogo de lápis de cor, um jogo de canetinhas hidrocor. Não era incomum e aconteceu lá em casa. Como era eu o mais velho, tive que esperar até os sete anos e meio para entrar na escola com meu irmão mais novo, o Jaqueson. Havia certo inconveniente, claro, em se ter apenas um livro didático para os dois, mas ao mesmo tempo era muito melhor começar a vida escolar acompanhado do irmão do que sozinho.


Pois um ano depois, naquele dia em que eu entrei na porta errada da minha escola nova do bairro novo comecei a perceber o que eu sentia por aquele meu livrinho multiplicado centenas de vezes. Impressionou-me profundamente aquela sala. O quanto havia de bonito naquelas cores! Quanta diversidade e variedade de formatos e qualidades de papéis! Mesmo os mais velhos e manuseados! Os gibis! Havia mapas nas paredes e um globo ao alcance da mão, bem à altura dos olhos de uma criança do meu tamanho. E ao me voltar para trás, eu pude ver, num lugar um tanto central numa das estantes, em um silêncio cheio de mistérios, uma enciclopédia. Barsa era o nome dela e estava completa. Como resistir a tanta coisa maravilhosa?

Imagino que aquela biblioteca não tivesse nada demais. Era muito provável que seus livros não fossem novos, como é a realidade da maioria das bibliotecas públicas brasileiras (mesmo as escolares), mas dependendo da sua perspectiva, ou seja, se você vê de baixo para cima ou de cima para baixo, uma sala com livros pode mudar de figura e significar coisas muito, muito diferentes. Foi o que aconteceu comigo, numa escola pública, num bairro periférico de uma cidade periférica na Região Metropolitana de Porto Alegre.

A partir do dia que entrei na porta errada eu, simplesmente, todos os dias passei a ir para a biblioteca nos recreios. Sim, batia a sineta, meus colegas saíam correndo e se acotovelando para suas estripulias no pátio e eu, da mesma forma, pulava a toda velocidade, com meu lanche na mão em direção à porta errada. Precisava chegar à biblioteca, antes que a professora Marina saísse para seu próprio recreio. Por minha insistência tínhamos feito um acordo. Ela deixava-me entrar e chaveava a porta errada comigo lá dentro. Eu ficava lá, com meu lanche, naquele silêncio quente e delicioso, a folhear a Barsa, os enormes Atlas tão perturbadores, ou a passar os olhos pelos diferentes livros, em busca de alguma coisa que até hoje, mesmo depois de um doutorado em Filosofia, não sei o que é nem nunca saberei do que no fundo se trata.

Naquela época, a biblioteca não ficava aberta durante o recreio e me parecia normal que a professora também pudesse ter seu descanso. Aqueles 15 minutos eram pouco mas davam para muito. No final deles, pouco depois que tocava a sineta, ouvia o barulho da chave na porta e era a professora Marina abrindo-a para que eu voltasse ao mundo normal. Passo a passo, mês a mês, fui chegando cada vez mais perto daqueles hipnotizantes livros de aventura, das histórias de Julio Verne e suas Vinte mil léguas submarinas, A Volta ao Mundo em 80 dias, Viagem ao centro da Terra etc. Também, claro, A Ilha do Tesouro, de Stevenson, Moby Dick, do Melville, as inesquecíveis aventuras da Coleção Vagalume... Tanta coisa! Eu sentia como se a biblioteca fosse uma espécie de nave, de bolha na minha realidade, e que eu podia levar para casa desdobrando-a e continuar viajando para bem longe, naquele navio no Pacífico Sul, naquela espaçonave rumo a outro planeta, naqueles trens atravessando as geladas estepes siberianas. Na verdade era apenas uma sala de madeira, mas eu garanto que era suficiente para me transportar para esses e muitos outros lugares.



Naquele mesmo ano, quando chegou o inverno e as tardes eram frias e chuvosas, em vez de ficar em casa eu preferia pegar minhas botas de borracha e o guarda-chuva e caminhar até a porta errada. Ganhei até uma carteirinha de bibliotecário e ajudava os alunos da tarde na escolha dos livros e também nas recomendações sobre como e quando tinham que entregá-los depois de lidos. Eu gostava daquela palavra: bibliotecário, e foi assim que eu fui tratado por uns dois anos seguidos na Victor Hugo Ludwig.

Não por acaso aos 12 anos de idade, eu sabia todas as capitais do mundo. A primeira coisa que um livro e uma biblioteca significavam e significam para mim é uma possibilidade de viagem, não para fugir, mas inclusive para voltar, sempre. Nem de longe eu tive uma infância triste na Mathias Velho, mas à medida que o mundo ia se ampliando à minha volta eu podia sentir que viver era muito, mas muito mais. Acho que inclusive por isso desenvolvi muito cedo um gosto pela literatura menos focada no registro sociológico ou jornalístico. Eu conhecia suficientemente a minha realidade e preferia ir para outros lugares pois já estava constantemente dentro dela. Inclusive, e sobretudo agora que sou um escritor com mais de 20 anos de atividade, vejo o quanto a literatura de imaginação pode fazer por quem vive em determinadas realidades sociais.


Mais tarde, já com 15 anos de idade, meu pai perdeu o emprego em uma demissão em massa de metalúrgicos, no início dos anos 80 e nós, eu e meu irmão, depois toda a família, começamos a trabalhar como camelôs no centro de Canoas. Além da trabalheira, foi muito divertido. E o período em que mais li por prazer em toda minha vida. Achávamos que a coisa ia durar pouco, que em breve passava a crise dos anos 80. Que nada! Foram oito anos e, neles, claro, eu aproveitei o que pude da Biblioteca Pública João Palma da Silva. Ela tinha 40 mil livros e ficava numa espécie de shopping, o Conjunto Comercial Canoas.

Com os livros da João Palma da Silva eu passei para um outro estágio. Havia temporadas em que eu lia um livro de 100 páginas por dia, de 200 páginas em dois dias. Algumas vezes, em função deste meu ritmo de leitura, acontecia uma coisa curiosa. Tinha dias que eu pegava o livro de manhã e no meio da tarde já o tinha lido. Assim, ia à biblioteca para trocá-lo por outro. Desconfiados com aquele moleque que levava livros e os trazia no mesmo dia, eu recebi mais de uma contundente negativa: “Não, não vai levar outro. Tu não está lendo!”. Nessas ocasiões, minha estratégia era contar a história que havia no livro e dizer “olha lá, confere se não é isso mesmo” para que a atendente da biblioteca se convencesse. Uma dessas vezes um dos atendentes, talvez por não conhecer do que se tratava o livro, me fez voltar de mãos vazias. E era um sentimento de vazio, mesmo, ter que ficar sentado na banca sem um livro novo pra ler.

Impossível descrever os dias de prazer e a formação aberta, solta e produtiva que tive naqueles anos de camelô, lendo e aproveitando o máximo que podia de uma das “minhas universidades”, para me referir a um título de Maxim Gorki. Foi uma formação anárquica, vital, prazerosa e livre, a partir do acesso a uma boa e variada quantidade de livros. E tudo com a escola, com aquele livrinho de presente e depois com aquela porta errada. Hoje já se passaram quase 40 anos desde aquela época. Andei por boa parte do mundo sobre o qual eu lia e decorava nos mapas. Aquela porta também se abriu para que eu pudesse chegar a trabalhar por dez anos na política cultural e até mesmo coordenar por um bom tempo a política de livro e leitura do Brasil inteiro. Quando eu fui secretário de Cultura em Canoas colocamos a biblioteca João Palma da Silva ao lado da Prefeitura e da Câmara de Vereadores, no lugar mais central da cidade. Hoje ela está lá num prédio próprio bem mais amplo e arejado, talvez com mais jovens e crianças entrando para o mundo da leitura.



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Jéferson Assumção (Santa Maria-RS, 1970) é autor de mais de 20 livros entre ficção e filosofia. Recentemente publicou "Notas sobre Turibio Núñez, escritor caído" (romance bilingue, português/espanhol, BesouroBox, 2016) e "Cabeça de mulher olhando a neve" (BesouroBox, 2015, Contos), que tiveram lançamentos no Salão do Livro de Paris (França, 2016), na Argentina, Espanha e na Finlândia. É Doutor em Filosofia pela Universidade de León (Espanha), tem pós-doutorado em Teoria Literária na Universidade de Brasília (UnB) e Diploma de Estudos Avançados (DEA) em Filosofia também pela Universidade de León. Atuou por dez anos em diversos cargos na política cultural nacional. Foi  assessor, coordenador-geral e diretor de Livro, Leitura e Literatura no Ministério da Cultura, secretário municipal de Cultura de Canoas-RS e secretário adjunto de Cultura do Rio Grande do Sul. Como repórter especial, gestor cultural e ativista, já atuou em mais de 30 países, como Índia, Quênia, Marrocos, Senegal, Tunísia, diversos países sul-americanos e europeus, Japão, Cuba, República Dominicana e Costa Rica. Coordenou a participação brasileira em feiras do livro internacionais, como as de Frankfurt, Salão do Livro de Paris, Feira do Livro de Santiago do Chile e de Santo Domingo. Mora em Brasília, onde ministra uma Oficina de Escrita Criativa.

8 comentários:

  1. Adorei . Linda demais essa história.

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  2. Elisabeth Rubel Dias7 de julho de 2017 04:12

    Amei...Tua história é demais!Encantadora e de muito amor pelos livros e a leitura!

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  3. Amei teu relato. Emocionou-me mais porque também passei minha infância catando livros nas bibliotecas públicas de Canoas. Parabéns pela beleza da trajetória.

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    1. Obrigado. Valeu. Acompanhe lá.
      Www.jefersonassumcao.com.br

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