terça-feira, 4 de julho de 2017

Poema


Poema
Alex Andrade

Esta coisa é a mais difícil de entender. Não digo que sejamos assim uns tolos, sem a delicadeza que a alma necessita, talvez uma espécie de resistência ao que pode nos mover, talvez. Parecerá óbvio se disser que falo do amor, mas é extremamente difícil falar do amor e ainda conservar uma ingênua vontade de sermos imutáveis. O tempo é imutável. E podemos ainda assim falar do tempo com a destreza de uma criança, que se move além dos seus limites.
Poema simplesmente não saberia dizer o que seu nome significava. Não saberia dizer de onde vinha, como tinha chegado à vida e nem onde estavam as saídas. Pareceu-lhe vagamente sonhador ter entrado na vida assim como se tivesse entrado espremida por uma brecha feita só para ela. O fato é que quando abriu os olhos estava viva. E como não conseguiria voltar atrás, ficou ali de pé, no meio de uma rua cheia de carros, pessoas e prédios, muitos prédios. Ela era uma figura meiga. Sua meiguice era mais estranheza do que meiguice. Dois olhos enormes numa magreza de rosto, um sorriso tão triste que confundia o que se passava na sua cabeça, ela era toda ao contrário. Uma colega de trabalho não sabia identificar quando ela estava sentindo alegria ou tristeza, mesmo quando varria os cômodos do hotel em que trabalhava, o que para ela significava a maior felicidade do mundo, pois trabalhar era o que lhe restava, já que não haviam outros meios de sobrevivência em uma cidade grande. Nunca seria puta, por exemplo, porque lhe faltavam os atributos. Desde que chegou do Nordeste, essa ideia nunca tinha lhe passado pela cabeça. Ninguém olharia para ela com desejo se fosse um frango de padaria a girar no forno, não haveria cães que parariam na frente para babar por ela, nunca.
Daí que nunca soube o que era o amor. A única coisa que queria era amar. Não sabia para que, nem o que se fazia com o amor. Ela pensava que todo mundo no mundo vive para amar e ser amado. “Um dia vou ser tão amada que posso até morrer, porque sei que a felicidade é morrer do coração”, ela dizia para as colegas de quarto.
E mesmo com dificuldade para ler e escrever, na adolescência essa moça tinha o hábito de decorar frases das boleias dos caminhões que passavam pela estrada na frente da sua casa. E achava que aquilo era poesia e ficava toda encantada de ter o nome que tinha, pois supunha que poesia era parente de poema ou coisa parecida. Deixa disso, mulher, desde quando nome de pobre tem a ver com coisa bonita? Isso deve ser outra história. Pousou a vassoura na quina da parede. A amiga queria tornar equívoca aquela ideia e precisava se assegurar da burrice da outra.


Esse não entendimento das coisas parecia ser ruim, mas para Poema era como uma válvula que timidamente acionava a curiosidade dentro dela. E por incrível que possa parecer, ela buscava encontrar o significado das coisas. Uma vez ficou horas pensando por que tinha que limpar as privadas dos quartos dos hóspedes todos os dias. Morava num pequeno conjugado no centro da cidade com mais três mulheres, dormia em um colchonete no canto perto da janela, onde espiava o céu e ficava contando as estrelas antes de dormir. Como também não sabia contar direito, voltava sempre para o início da contagem e recomeçava do zero. Isso a deixava tão  cansada que adormecia. A faxina do banheiro do pequeno apartamento só acontecia aos sábados e revezava com as amigas quem limparia a privada a cada semana. Na semana que chegava a sua vez, ela sofria. Um sofrimento tão cheio de referências do passado, do tempo em que a comida faltava, do sono que faltava, e só lhe restavam os sonhos. O cheiro de murrinha impregnado nos assoalhos encardidos deixava a trágica sensação de que vivia em eterno castigo, como se nunca fosse alcançar a felicidade. E para ela a felicidade poderia ser apenas um detalhe, que caberia apenas em um dia.
Às vezes ouvia música para alegrar seus movimentos, a moça que limpava privadas ligava o rádio que tinha comprado a prestação para ouvir música e entoava com sua voz desafinada alguns trechos das canções que ouvia e que conhecia, e ficava admirada com o som que saía da sua boca, brincando com a acústica que os banheiros têm, como se fosse uma criança descobrindo o mundo a sua volta.
Outra vez ouvira no rádio no meio de uma canção a voz da cantora a declamar: “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”.
 Então ela sentiu uma confusão no peito, quase um susto. Como não sabia distinguir coisa alguma, ficou difícil para ela acreditar que as cartas de amor eram ridículas. E como não conhecia o amor, sentiu-se ridícula. Durante o resto do dia ficou ouvindo os versos do poema martelando na sua mente como uma tortura. Tinha certa dificuldade para ler, mas adquirira com o tempo uma facilidade para decorar as coisas que lhe interessavam.

Marie Sirgue, "Pris par le temps", 2011. 

Quando fora dormir, deitada em seu canto espremido, com a cabeça encostada na parede bem abaixo do parapeito da janela, ficou sussurrando aquela frase que não lhe saía da memória, bem baixinho que é para não acordar as outras meninas. E sonhou com tantas cartas de amor que seu coração ficou todo contente, e mesmo dormindo seu semblante triste enfim sorria.
No dia seguinte, quando acordou, a boba da moça levantou-se toda animada: era domingo, estava de folga, estava também inquieta, tinha sonhado tantos sonhos de amor que mesmo que a poesia continuasse martelando na sua cabeça que as cartas de amor eram ridículas, nada lhe doía.
Poema então pintou cuidadosamente os olhos, foi delineando os cílios, toda bem intencionada. Ainda que não ficasse bonita, era mulher e conservava uma pequena vaidade. Pintou os lábios com o batom vermelho de uma das amigas, passou perfume de farmácia no pescoço, nas axilas, em volta dos seios, até nas pontas do cabelo, despertando a curiosidade das amigas, que a assistiam  curiosas e perplexas, deitadas nos colchões espalhados pelo chão. Era de admirar que aquela figura desprovida de qualquer interesse por si mesma tivesse o ímpeto de se ajeitar, nem que fosse para sentar e assistir televisão.
Poema era assim, vivia desgrenhada, o cabelo encaracolado e maltratado, sem o menor jeito. Podia prender, jogar para um lado ou para o outro, até virar pelo avesso, não adiantava. Mas aquela manhã estava diferente, nem de longe parecia a mesma.
No meio do dia foi andando devagar pela rua, o coração batendo solenemente, estava se deixando levar como um pássaro flutuando no céu. Caminhava e vez por outra parava defronte a um outdoor para ler os anúncios e decorá-los. Levava um tempinho até juntar letra a letra, formar palavra e completar frase, mas lerdamente conseguia. Bravamente. E andava adiante repetindo o que acabara de ler, como um papagaio: “O mundo fica melhor com duas línguas”, dizia um anúncio de curso de inglês que mostrava a imagem de um casal em um beijo ardente.
Nesse outdoor, a moça demorou mais tempo para sair, ficou confusa tentando entender o que aquilo queria dizer, mas sabia exatamente o que significava a imagem que estava vendo. E teve raiva. Porque na sua ingenuidade de moça do sertão, diante do que tinha lido e visto, ela que nunca tinha sido beijada não fazia parte do mundo. Ou então seu mundo não era nada bom.
De vez em quando falava consigo mesma, reclamando do seu destino, das ausências que lhe tomavam a alma, gostaria de tanta coisa na sua vida que talvez tivesse que se multiplicar e ter mil Poemas no mundo para tudo o que desejava caber dentro.

Neste dia, aconteceu o inesperado.
Com o coração miudinho, esmagado entre a angústia e uma falta de, sentiu uma vontade imensa de chorar, chorar pelo que não viu, pelo que viu, pelo que não viveu, pela falta de tudo, até da esperança, que de repente escapou-lhe das mãos. Poema entrou no primeiro shopping que estava de portas abertas e foi direto para o banheiro. Tinha vergonha de chorar em público, porque achava feio chorar, e como já era feia de nascença ficaria mais feia ainda chorando, assim pensava. E foi borrando a maquiagem com as lágrimas, sentada no vaso sanitário dentro do reservado do banheiro, chorava feito criança. Gemia feito uma tonta e espremia entre os dedos o papel higiênico onde secava as lágrimas, repetindo com fúria: “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”.
A moça do sorriso triste levou uma boa hora sentada na privada do banheiro do shopping chorando e resmungando.
Naquele dia inesperado, alguma coisa tinha que acontecer para salvar a alma daquela mulher, mesmo que durasse apenas esse dia teria de ser bom.
Poema levantou-se ainda tonta, mais do que de costume, olhou-se no espelho, desfigurada, fúnebre, a maquiagem borrada, os olhos esbugalhados, abriu a torneira e lavou o rosto.
Abriu a porta do banheiro sem o menor cuidado e saiu pelo shopping lotado feito uma sombra andando entre as pessoas. Um homem de terno elegante tirou o chapéu da cabeça e a cumprimentou parando bem a sua frente, e ficou a admirá-la por uns segundos. Olhavam-se com tanta ternura que pareciam se conhecer de algum lugar ou tempo. Na verdade era ele que a olhava como se escrevesse cada pedaço do seu corpo com a sutileza da alma, coisa que só os poetas conseguem.


Poema, ela se identificou timidamente.
Ele se aproximou e com voz delicada se apresentou também, Fernando.
Ela teve vontade de chorar, mas dessa vez era choro de emoção, não de raiva. O movimento dos olhos dele, por trás das lentes dos óculos, desenhava nela um sentimento tão preciso e ao mesmo tempo tão puro que ficavam assim, anestesiados como linha que repousa no tecido e vai costurando a roupa que veste e enobrece o homem.
Ele lhe estendeu a mão e saíram a passear pelo shopping, sem o receio de serem vistos juntos. Pararam diante da vitrine de uma livraria onde estavam expostos os livros, muitos livros. E Poema, com medo de que tudo se confundisse e isso causasse uma grande ruptura, quis recuar.
Fernando contou-lhe bem baixinho um segredo, que gostava de criar um drama em gente ou um drama em almas. Ela riu, não se sabe direito se tinha entendido o que ele quis dizer, mas estava rindo porque acreditava no que ele dizia. E desistiu de partir: pelo contrário, estava se apaixonando por ele, a tal ponto que não queria desgrudar daquele homem misterioso.
Me conta um segredo, ele pediu. Ela estava tão demasiadamente amando aquilo tudo que não saberia descrever o que se passava na sua cabeça, custou a perceber que havia ali um desejo de amor – embora ela desconheça o que é o amor, foi tentando encaixar as coisas para entender o que se passava naquele instante.
Os dois ficaram assim, na frente da vitrine da livraria, ora olhando os livros, ora se olhando pelo reflexo do vidro, admirados pela grandeza que é o momento eterno.
Poema encheu-se de pensamentos, de uma hora para outra estava sendo invadida por eles como se a bombardeassem numa guerra, tive um passado? Sem dúvida... Tenho um presente? Sem dúvida... Terei um futuro? Sem dúvida... A vida que pare daqui a pouco... Mas eu, eu... Eu sou eu, eu fico eu, eu...
O amor estava desenhando nela sua doce e amarga trajetória, dava-lhe um desespero que vinha não sabia de onde. Só sabia que estava experimentando uma coisa nova e nunca mais poderia recuar para aquilo que nunca tinha sentido antes, como voltar à página em branco.
Depois ele entrou na loja, pegou um livro e o levou até Poema, que estava pálida como numa vertigem.
Poema, Poema, ele repetia com o livro nas mãos, olhando para ela como se quisesse ler o que ela não conseguia lhe dizer.
Era admirável a comunicação que se criou entre eles, havia poucos minutos que estavam juntos e já se decifravam com uma clareza esplêndida, que tornava a felicidade em súbita morte.
Ambos estavam pálidos e ambos se achavam no amor. Ficaram em silêncio muito tempo. Fernando abriu o livro repentinamente e se pôs a ler:

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!
Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não sou eu.
As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.
As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.
Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta –
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.
Que grande felicidade não ser eu!
Mas os outros não sentirão também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.
Nada? Não sei...
Um nada que dói...

Ele ainda tentou balbuciar um nome, Álva... Álvaro de Campos... Ela o interrompeu beijando desesperadamente sua boca trêmula.
Um beijo suave, estranho, vivo ou morto, com certeza eterno. Ela enfim acreditou ter encontrado o amor.
A moça feia, magra e sem sorriso nos lábios, que se chamava Poema e que parecia uma página em branco, mas que estava toda preenchida de versos, que demorava para juntar letras, formar palavras e criar frases. Enfim encontrou o amor, o mesmo amor das cartas ridículas, das línguas que se beijam nos anúncios dos outdoors, estava estranhamente sendo ridícula e beijada. O amor lhe caiu bem.
E subitamente caíram os dois sobre o livro que estava no chão, bem em cima da página aberta onde repousava a poesia: “Nunca, nunca, em nada, raie a madrugada, ou ‘splenda o dia, ou doire no declive. Tive, prazer a durar, mais do que nada, a perda, antes de eu o ir, gozar”.


Cobriram-lhe o corpo com o lençol. Foi sem sobressalto que ela sentiu a mão dele repousando no meio dos seus seios.
Embora estivesse cheia de amor, a faxineira do shopping que a encontrou caída entre a privada e a divisória do reservado do banheiro feminino descreveu aos curiosos  de plantão a imagem de um rosto sem sorriso, que parecia calmo, mas triste.
Fernando a conduziu com a mesma doçura de sempre, estendeu-lhe a mão e saíram os dois abraçados, num ato de amor. Ainda ouviu a voz de Poema a sussurrar-lhe palavras doces, quase em oração:

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é...

XXX


Alex Andrade é escritor e arte educador, nascido no Rio de Janeiro.Tem publicado os livros infantis A galinha malcriada e O pequeno Hamlet (ambos inspirados na obra do bardo inglês Willian Shakespeare), os livros de contos A suspeita da imperfeição, Poema, Amores, truques e outras versões, As horas e o romance Longe dos olhos.
Poemas citados no conto: “Todas as cartas de amor são”, “Eu, eu mesmo”, “Na casa defronte de mim e dos meus sonhos”,  “Leve, breve, suave,”  “O guardador de rebanhos”.


Nenhum comentário:

Postar um comentário